O caso das bromélias

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A vida em condomínio não é fácil, não há rotina no convívio com diferentes pessoas, diversas histórias e acontecimentos. Essa é apenas mais uma que ilustra a dificuldade de convivência.

Após alguns anos de reformas e melhorias no prédio, chegou o esperado momento reivindicado por todos para a reconstrução do jardim. Cotação do custo, escolha do menor preço, em obediência ás regras do condomínio, que indicou a contratação de um jardineiro, prático em escolher, distribuir e cuidar de plantas.

Mais de uma vez, em plena madrugada a síndica e o jardineiro se encontraram em um entreposto de plantas e flores para escolher a composição do jardim. As possibilidades para a montagem são infinitas, um caleidoscópio de incontáveis figuras. Selecionar flores ou manter apenas o verde? Combinar espécies e cores, em que proporção? Altura, resistência, facilitação de cuidados, resistência ao sol, vento, chuva, variáveis se multiplicam e dificultam a escolha.

Enfrentando solitariamente as indecisões e apoiada tecnicamente pelo jardineiro, a síndica tentava visualizar um belo jardim, adquirindo mudas, terra, adubo, entre outras coisas, para poder concretizá-lo. Sentia-se como alguém que não sabia pintar, na companhia de um artista desconhecido, em quem era preciso confiar, enfrentando o desafio de selecionar tela, palhetas e até moldura para um quadro imaginário, em loja com incontáveis e variados materiais de pintura. Ela sabia que a seleção e composição iriam ser avaliadas por uma coletividade de críticos impiedosos, que ela conhecia muito bem.

Para administrar bem a verba do condomínio, como sempre, tentava economizar, negociava valores de compra das mudas, entregas concomitantes de grama e plantas. O processo de compra constava da escolha, separação e pagamento das mudas com o melhor preço, colecionar as notas fiscais e ao final voltar aos boxes, com um carrinho, para recolher as compras e levá-las até o local do transporte contratado para a grama. Nesse processo, foi vítima de um golpe que desconhecia existir no entreposto. Em um dos stands de venda de flores, um pseudo – atendente que ofereceu o melhor preço e que foi pago, fornecendo uma “nota fria”. Ao retornar, para recolher as mudas foi informada que o atendente, de um dos boxes, não tinha autorização dos donos para comercialização. Ela já se imaginou pagando o prejuízo (que não era pequeno) ao condomínio.

O jardineiro que a acompanhava se revoltou e saiu em busca do falsário e o encontrou no meio da multidão, aplicando novo golpe. Mais forte que o gaiato, obrigou-o, à força, devolver o dinheiro indevidamente recebido. Sem fôlego, ela acompanhou a confusão, se imaginando numa delegacia ou na manchete de um jornal. Por pura sorte, houve um final feliz.

O jardim foi, finalmente, realizado e a ela pareceu bonito ao observar a composição harmônica das lavandas, lírios, orquídeas, cerca viva de murtas, bromélias, gramíneas entre outras. Recebeu alguns poucos elogios, mas já estava acostumada a falta de reconhecimento do esforço e dedicação que dispendia para a comunidade.

Na reunião de condomínio, reeleita para o cargo de síndica, interpretou o fato como aprovação e reconhecimento pelo seu trabalho e em especial pelo jardim. Essa sensação de dever cumprido com louvor, durou pouco. Depois da reeleição, no item outros assuntos, alguns condôminos a acusaram de criar problema de saúde pública. Uma moradora a responsabilizou por criadouros do mosquito Aedes Aegypti em duas bromélias do jardim. Destacou que todos os moradores do prédio corriam o risco de adquirir doenças e ameaçou ir a subprefeitura do bairro. Para justificar a acusação foi citada como fonte, um programa de televisão que indicou a bromélia, como responsável por disseminar dengue, chikungunya e zika vírus. O terrorismo se alastrou entre os moradores presentes e foi exigida a eliminação das bromélias. No calor do momento, pressionada, a síndica até tentou argumentar, mas diante de tantas reclamações acabou aceitando o veredicto de condenação à morte das flores delinquentes.

No outro dia, observando as condenadas, sem defesa, a síndica buscou informações mais efetivas sobre o risco que elas ofereciam. Apoiada por outros moradores, que também investigaram as responsabilidades das bromélias em casos de dengue e outras doenças, não havia justificativas plausíveis para a precipitada condenação delas à morte. Assim, temporariamente elas foram poupadas.

Talvez, se as condenadas tivessem direito a se expressarem elas diriam:

 

“ Caro, condômino

Soubemos da grande polêmica provocada por nossa presença no jardim. Ficamos felizes por nos escolherem, entre tantas irmãzinhas, para enfeitar o seu ambiente. E surpreendentemente fomos condenadas como transmissoras de doenças, sem direito a qualquer defesa. O ser humano é muito estranho, acredita que pode interferir e até mesmo destruir a Natureza, a partir de mitos.

Você sabia que pesquisadores e estudiosos do meio ambiente realizaram pesquisa, durante um ano, nas bromélias do jardim botânico do Rio de Janeiro e que apenas 0,07% e 0,18% de um total de 2.816 formas imaturas de mosquitos coletadas nas bromélias, correspondiam ao Aedes aegypti e Aedes albopictus, sugerindo que nós não constituímos um problema epidemiológico, como foco de propagação ou persistência desses vetores? Especialistas, estudiosos da flora, relatam que devido as nossas características, somos vítimas de injustiça, de acusações infundadas.

Nossa água é considerada pelos especialistas, poluída, com a presença de predadores do mosquito Aedes aegypiti, que prefere água limpa. Para evitar qualquer risco, mesmo que ele seja mínimo, o uso de inseticidas naturais, uma vez por semana, pode impedir a existência desses mosquitos. Para especialistas em prevenção, combate e controle de pragas a água dos bueiros, localizados em frente aos prédios, oferecem maior risco, como criadouros de mosquitos, que nós, as bromélias.

Alguns moradores desse condomínio já providenciaram o inseticida natural e ele está sendo usado na nossa rega, impedindo a existência de mosquitos transmissores da dengue e outras doenças.

Esperamos, que a sua preocupação se volte para evitar água parada em pratinhos, garrafas e outros locais onde o mosquito comprovadamente se prolifera, em vez de nos acusar, e nos eliminar do jardim.

Nossa existência depende de você e esperamos que pesquise e reflita melhor antes de decidir pela nossa eliminação, sem provas e uma base científica. “

A opção em poupar as flores, permitir que vivam é uma batalha que está apenas começando e que promete desdobramento em muitos outros capítulos. Enquanto isso, as bromélias cumprem silenciosamente seu destino, simplesmente embelezando o jardim. Até quando?

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2 comments

  1. Consuelo Fernandez disse:

    Uauuuu!!! Ivete, como sempre, você consegue prender a gente pelo seu texto. Que ideia incrível essa de dar voz às bromélias. Você tem uma forma incrível em tornar o cotidiano em algo desafiador. Muito bom. Adorei ter lido mais este conto.

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