Árvore de Natal

Os netos e agregados corriam eufóricos pela casa, e de quando em vez paravam diante da árvore enfeitada, com a curiosidade aguçada para descobrir os destinatários dos pacotes enfeitados. Divertindo-se com o alegre som da alegria, a passos lentos, ela buscou assento nas proximidades da árvore.

 

O pisca-pisca das luzes coloridas a transportou para uma viagem no tempo. Viu-se menina, no início de um mês de dezembro distante, ajudando a enfeitar a árvore de Natal. O pai selecionava e transportava, a cada ano, o imenso pinheiro que exalava um cheiro de mata e terra, plantado, com a ajuda de todos, em um vaso enorme. A mãe trazia as caixas guardadas no porão, espanando-as e analisando se seu conteúdo se mantinha intacto. Distribuía as caixas entre ela e os dois irmãos para a cuidadosa operação de adornar a árvore. A mãe mantinha-se atenta, supervisionava cada movimento das crianças, recomendando o tempo todo, cuidado na manipulação das frágeis peças. Apesar de todo cuidado, alguns enfeites se quebravam. A mãe recolhia e acondicionava os perigosos cacos e a cada ano comprava mais caixas com novos e mais bonitos enfeites, para tornar os inúmeros galhos cobertos pelos objetos brilhantes e a árvore cada vez mais formosa. Ela adorava pendurar cuidadosamente os ganchinhos dos enfeites, as bolas de cores variadas, anjos, gotas, estrelinhas, casinhas e para ela o mais bonito de todos, o Papai Noel. Para ele eram selecionadas as posições de maior destaque, na parte frontal da árvore.  Enquanto as crianças e a mãe enfeitavam a árvore, o pai testava as luzes coloridas e providenciava a troca das que não acendiam.

 

Após a colocação dos enfeites, as crianças faziam bolinhas de algodão para serem distribuídas nos galhos, imitando neve. A mãe fazia um controle de qualidade geral, acertando os ganchinhos para não despencarem, recheando as partes mais vazias, distribuindo melhor a neve.  Finalmente, com a ajuda de uma escada, colocava o ponteiro, a super-estrela, no alto da árvore e o pai envolvia cuidadosamente os galhos com a fileira de luzes coloridas. Era um dia inteiro de trabalho, de alegria e de indescritível prazer na observação do resultado final.

 

Com a morte dos pais, ela herdou os enfeites reproduzindo, por muitos anos, o ritual da montagem da árvore. Inicialmente participava os irmãos e mais tarde o marido, filhos, sobrinhos e cunhadas. Em janeiro reunia novamente toda a família para a desmontagem da árvore. E como o pai, procurava uma praça, um espaço de terra qualquer, para plantar o pinheiro.

 

Com a partida do seu companheiro de muitos anos, procedeu a última desmontagem da árvore. Reuniu filhos e sobrinhos e pediu que escolhessem os enfeites que desejavam para montarem suas próprias árvores. Alguns não se interessaram, mas três deles participaram da divisão e os enfeites foram cumpri o seu destino em três diferentes lares. E lá estava ela diante de uma das árvores, que não era mais natural, com luzinhas de led e com enfeites de material mais resistente. Mas, ainda lá estavam alguns daqueles enfeites da sua infância.

 

O grito de uma das crianças chamando-a para a ceia a despertou das lembranças. Ela sorriu grata pelos doces momentos vividos à sombra da árvore enfeitada e pela semente da magia que se desenvolveu e reproduziu. O presente mais significativo que recebeu nas comemorações de Natal de toda sua vida, estava naquela árvore enfeitada, na beleza construída pelo sentimento de união da família, na sensação de eternidade inspirada por esses momentos de construção conjunta.

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