Vida em comunidade

Há algum tempo, morar em casa, de uma rua determinada, propiciava a convivência entre os vizinhos, que estimulava o estreitamento de relações. Brincadeiras de rua entre as crianças, adultos com cadeiras nas calçadas e longas conversas no final da tarde. Compartilhava-se os dramas da vida, a alegria das festas, a solidariedade na doença e o luto na morte. O pertencimento era um sentimento comum nas ruas da cidade. Cada morador era parte de uma comunidade, partícipe de uma grande família. As desavenças eram mediadas sem que os elos afetivos fossem rompidos. A moradia era ocupada, por décadas, pela mesma família. A permanência no mesmo local, era estimada em gerações e gerava nas pessoas a consciência da importância de um bom convívio.

Quando havia problemas com o telhado de uma casa, todos ajudavam a consertar no final de semana. Mutirões faziam parte do cotidiano para consertos, manutenção e até para enfeitar as casas e a rua nas festas juninas ou Natal. Sempre havia aqueles com maior habilidade que se encarregavam de orientar os outros. Os anfitriões expressavam sua gratidão, oferecendo o almoço ou churrasco para todos.

As tecnologias, nem sempre acessíveis a muitos, eram generosamente colocadas à disposição para a vizinhança, por quem as possuía. O telefone era partilhado com os vizinhos para as ligações, anotações e transmissão de recados. Assistir aos capítulos da novela na televisão da casa de um vizinho era algo corriqueiro.

O número de pessoas nas cidades cresceu e as casas foram substituídas por construções verticais. A vida tornou-se veloz, roubando o tempo das pessoas. A permanência passou a ser transitória, estimulando constantes mudanças e evitando raízes. Cruzar com pessoas que residem no mesmo prédio tornou-se raro e fruto do acaso. A organização da vida em comunidade, antes a partir de sentimentos, se institucionalizou. O síndico passou a representar os moradores para providências de melhoria e manutenção dos edifícios, um administrador de serviços de terceiros. Exige uma competência em identificar problemas, selecionar prioridades, licitar serviços, negociar preços, acompanhar e avaliar serviços prestados, verificar contabilidade, orientar funcionários, prestar contas, organizar assembleias. Essas atividades são realizadas em horários vagos da vida profissional, familiar e pessoal. São eleitos em assembleias e, em geral, recebem como contrapartida, a dispensa do valor do condomínio, o que não corresponde ao trabalho e esforço dispendidos. Em muitos prédios, a falta de interessados na função leva a se buscar um profissional externo.

As atividades administrativas são a menor parte dos problemas que um síndico enfrenta. Os moradores e suas idiossincrasias são o maior obstáculo. Em tempos que a “cultura do ódio”, é predominante, as diversas comunidades acabam sendo afetadas por ela. As pessoas buscam descarregar suas frustrações naquele que seria seu representante. Cobram, exigem, culpam e dificilmente se propõem a ajudar. Um elogio, então, é raro de acontecer.

Pude presenciar agressões gratuitas a síndica do meu prédio, que se desdobra para prestar um bom serviço ao condomínio. Testemunhei acusações que a culpavam pelo surto de dengue no bairro ao permitir a existência de bromélias no jardim. Houve até queixa na subprefeitura que nada encontrou no jardim que pudesse justificar. Reclamações da existência de goteiras na garage que ninguém é capaz de localizar, possivelmente, uma ghost goteira. O que mais surpreende, não são as queixas, que boa conversa pode resolver, mas a agressividade, a raiva, o desejo de vingança, que se transforma em ameaças.

Se para alguns a juventude pode justificar os arroubos, a idade não melhora a relação com as pessoas. Estive presente em situação em que uma senhora pediu para discutir um problema crônico do prédio, o entupimento do esgoto pelo descarte indevido de produtos. Foi um monólogo em discurso desconexo, com reclamações de tudo um pouco. Queixou-se de ter sido chamada de porca e piolhenta, interpretação dada por ela aos avisos no elevador que solicitavam para não se jogar lixo no esgoto; das perseguições da síndica para que ela não usasse a rampa do prédio, além de acusações de perversidades contra ela. Xícara cheia, não ouviu uma só palavra, das inúmeras tentativas de respostas às suas colocações. Gritava sem parar, e por fim ainda acusou a síndica de agressão, foi como ela interpretou a tampa da caneta ter escapado e se deslocado alguns centímetros na mesa. É impossível o diálogo com uma pessoa incapaz de ouvir, que fala o tempo todo, de forma desconexa. É como se o mundo estivesse conspirando contra ela que necessita se defender acusando a todos.

Pessoas assim devem estar presentes por todo planeta, mas deparar-se com elas no local onde se vive provoca profunda tristeza. A sensação é que a vida segue em universos paralelos, que conversar é impossível, menos ainda buscar uma relação de convivência respeitosa. A solução possivelmente será buscar o registro escrito na comunicação. A escrita exige uma lógica de argumentos que a emoção impede e esconde.

Mas, se na vizinhança nos deparamos com pessoas amargas, raivosas e nada solidárias, há também, as que nos fazem sentir orgulho de sermos humanos, e quero crer que sejam a maioria. Delas coleciono sorrisos, cumprimentos carinhosos, doce palavras, no sobe e desce do elevador.

Em especial, no meu andar,  tenho como vizinhas pessoas que aprendi gostar e respeitar. Não há contato frequente, não colocamos a cadeira no hall para conversar, mas a ternura e a solidariedade estão presentes. É um carinho traduzido em pacotinho na porta com algo que uma delas cozinhou, um interfone que toca apenas para saber se estou bem, um sorriso pela coincidência do encontro na saída ou chegada, uma palavra terna de preocupação com a saúde, uma conversinha rápida, mas divertida por telefone.

Como é bom sentir essa presença de vizinhos próximos e queridos. Confesso que se não fossem eles eu seria muito mais triste e solitária ou, então, teria me mudado para bem longe.

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