Sorte e acaso

Sorte e acaso

O premio de milhões no sorteio da loteria mobilizou os sonhos das pessoas e enormes filas se formaram nas casas lotéricas. Lembrei-me da história vivida por um velho amigo.

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Yoshito acreditava que a escolha do seu nome, em português Homem de Sorte, espelhava o seu destino traçado por deuses que premiam com sucesso o esforço dos humanos. Confiava na sorte e desconsiderava a interferência do aleatório na vida das pessoas. Filho mais velho de imigrantes japoneses nasceu no campo e com a ajuda de toda família formou-se em veterinária. Dedicado aos  estudos foi aprovado em um concurso público tornando-se funcionário de uma  repartição com a função de orientar tecnicamente  professores das escolas técnicas agrícolas do país. Casado, pai de duas filhas dedicava-se totalmente a  elas. Grato pelo esforço e sacrifício de toda sua família para sua formação escolar retribuía aos pais dedicando-lhes parte do seu salário e apoiava da melhor maneira que podia os irmãos, noras e sobrinhos na resolução de seus problemas e dificuldades. Sua vida baseava-se em esforço e sucesso compartilhado com a família.

Yoshito era o único veterinário da repartição com equipe composta de professores, pedagogos, psicólogos e alguns poucos engenheiros. Enfrentava sem se queixar da rotina diária de “bater ponto”, elaborar projetos em tediosas reuniões, preencher planilhas, elaborar relatórios. Nos intervalos dos cafezinhos ouvia atentamente as aventuras vividas pelos companheiros nos finais de semana, falava pouco e, mesmo quando estimulado a relatar seu lazer, desconversava dizendo apenas que gostava de churrasco e caipirinha.

Algumas vezes por ano  Yoshito viajava  para cidades do interior dos estados para orientar tecnicamente os profissionais educadores das escolas fazendas. Ele considerava esses momentos especiais; sentia-se feliz em analisar e  propor correções  no tratamento de animais para aumentar a produção de ovos, leite e carne e em prevenir doenças. Durante a aprendizagem, muitos alunos manipulavam os animais, que sensíveis aos diferentes toques a que eram submetidos, ficavam estressados e não conseguiam manter equilibrada a produção de leite. Yoshito costumava orientar os professores com técnicas simples para superarem essas limitações e contribuírem  para a sustentabilidade das escolas. Substituía as semanas de agitação da cidade pelo campo, do terno pela roupa de lida nos currais, aviários e pocilgas, do ar condicionado pelo sol, vento e chuva, da caneta pela maleta com os instrumentos veterinários. Discreto e tímido na repartição, nas escolas ele se transformava em uma  pessoa expansiva, contava histórias divertidas, casos que vivera na infância, ilustrando concretamente as orientações técnicas. Era respeitado e querido em todas as escolas que visitava.

Repartição e escola constituíam a lógica do equilíbrio da vida profissional  de Yoshito. Na vida pessoal encontrava a estabilidade por meio da tranquilidade nas relações familiares. Apenas um único sonho acalentado desde a infância abalava esse equilíbrio: ganhar na loteria. Ele jogava semanalmente repetindo sempre os  mesmos números selecionados na infância, uma combinação de datas importantes. Os jogos eram sempre individuais, pois apostava nos números e também na possibilidade de ser o único vencedor.

A probabilidade de acertar os números dos sorteios é muito pequena, na  mega sena é uma chance  em  cinquenta milhões, na lotomania, uma em onze milhões e na loteria federal uma em oitenta e três mil e é  matematicamente a mesma para todos os jogadores. Contudo, Yoshito acreditava em uma matemática romântica, sentimental, capaz de aumentar as suas chances de apostador otimista, confiante e persistente. Jogar os mesmos números era como repetir um mantra para renovar a esperança e a confiança na vitória. Apesar de sua formação científica desconsiderava as verdadeiras probabilidades de vencer um jogo e acreditava na sua sorte e no seu empenho como jogador. O prêmio que iria receber o libertaria do sentimento de devedor para com a família e o faria cumprir seu destino de um homem de sorte.  

Confiante no bom prêmio que iria receber Yoshito secretamente realizou o planejamento do uso do dinheiro. Construiu uma planilha com as despesas de viagem de toda a família para o Japão o que lhe permitiria realizar um desejo dos pais. Ele e os irmãos iriam  conhecer os encantos da terra dos antepassados e os pais poderiam rever suas raízes, os locais saudosos onde viveram. Planejada a viagem dedicou-se a analisar a compra de uma fazenda de criação de gado e a construção de uma confortável casa para os pais, para ele e para cada um dos irmãos. Possuía diversas opções de tamanhos e locais de fazendas que poderiam ser adquiridas, seus custos e o cálculo das despesas necessárias para as futuras benfeitorias. Estimou também os custos dos estudos e formação dos filhos e sobrinhos. O restante do dinheiro seria aplicado para propiciar renda confortável para todos da família. Anualmente ele atualizava os valores em relação ao prêmio previsto e aos custos dos investimentos.

Um dia, o sorteio da loteria coincidiu com os números do jogo de Yoshito. Ele conferiu afoitamente o resultado dezenas de vezes antes de se convencer que realmente era o ganhador. Considerou-se realmente um homem de sorte, premiado pela sua persistência e dedicação. A emoção sempre tão contida expandiu-se, acelerou o coração, fez as lágrimas rolarem sem controle e o corpo todo tremer.

Aos poucos foi recuperando o controle, manteve a calma e o segredo, orientado pelo planejamento detalhado que fizera, há muitos anos, para o dia que se tornaria um ganhador. Em casa, contou a notícia para a mulher e filhas  que vibraram e comemoraram muito. Em seguida, convocou por telefone toda sua família para uma reunião de emergência em sua casa. Com a ajuda da mulher e filhas organizou em pouco tempo uma festa com comida e bebida para todos. Pais, sogros, irmãos, noras e sobrinhos curiosos vieram conhecer a razão da inusitada reunião.

Yoshito vestiu seu melhor terno, recebeu os convidados um a um e somente quando todos estavam presentes solenemente revelou ser o ganhador da loteria da semana e para comprovar sua fala exibiu o bilhete premiado. Abraços, choros, risadas, regaram a comemoração com muitos  brindes aos novos tempos de fartura. Orgulhoso ele agradeceu uma vez mais o apoio da família e contou alguns de seus planos para que todos pudessem usufruir de uma boa vida a partir de então. Pediu ainda segredo absoluto para que nenhum deles se tornasse vítima de pessoas inescrupulosas.

Alvoroçados com a notícia os parentes falavam todos ao mesmo tempo sonhando e trocando impressões sobre a futura viagem, a fazenda e as casas que seriam construídas. Yoshito aproveitou o alvoroço, dobrou cuidadosamente o bilhete premiado e sem que ninguém notasse o colocou em uma caixa de estanho, onde desde a infância guardava as únicas fotos dos avós que permaneceram no Japão. Ajeitou a caixinha na estante que ficava bem próxima a porta de entrada da casa. Filhos e sobrinhos corriam, brincavam de pega-pega, iam e vinham do quintal para a sala e ninguém ousava censurá-las, pois aquela noite era uma criança como elas perfumada de alegria.

Mas, o acaso de repente se fez presente  interferindo na vida da família sem que seus membros estivessem  preparados para enfrentar o aleatório. A casa foi invadida por três jovens que anunciaram um assalto. O burburinho da comemoração transformou-se em sepulcral silêncio. Ninguém apresentou qualquer reação.

Os assaltantes estavam nervosos e gritavam palavras com ameaças incompreensíveis, exigiam que todos os pertences fossem colocados na mesa e ao mesmo tempo ordenavam que ninguém olhasse para eles. Bolsas, carteiras, relógios, joias e celulares foram obedientemente empilhados e os olhares voltaram-se para o chão. Um dos assaltantes recolhia os objetos colocando-os em uma mochila enquanto o outro pegava garrafas de bebidas e pratos de comidas preparadas para a comemoração, acomodando-as em uma sacola. O terceiro ladrão, que parecia ser o mais velho,  movimentava a arma de forma assustadora, gritava e ameaçava atirar se alguém reagisse. Adultos e crianças pareciam estátuas, completamente imóveis, sem esboçar nenhum gesto que pudesse ser interpretado como reação.

O dono da casa ergueu as mãos, dirigiu o olhar para o chão e pediu, em voz baixa, calma a todos incentivando os assaltantes a levarem tudo que quisessem e garantindo que ninguém reagiria. Então, buscou cruzar o olhar com cada um dos seus familiares numa súplica silenciosa para que se acalmassem, atendessem aos pedidos dos assaltantes; procurava acreditar que tudo em pouco tempo iria acabar bem. Na cabeça de Yoshito martelava a ideia de que acontecesse o que acontecesse o mais importante era todos permanecerem vivos.

O jovem assaltante com a mochila pediu a chave do automóvel e foi atendido imediatamente pelo dono da casa. Enquanto isso o assaltante que já estava com a sacola cheia passou a recolher objetos maiores, como a televisão, aparelho de som, computador, e os foi acomodando próximos à porta de saída. O ladrão que estava com a arma continuava mirando os presentes alterando o movimento de uma para outra pessoa. O assaltante da mochila ao tentar sair da garagem com o automóvel chocou-se violentamente com uma  pilastra e a batida o fez desistir de usá-lo na fuga. Ele voltou para a sala, apressando os dois outros assaltantes fazendo-os desistir de carregarem objetos maiores.

Depois de alguns minutos, que pareceram demorar horas os assaltantes da mochila e da sacola saíram rapidamente da casa em direção às duas motos estacionadas no portão. Eles subiram e partiram em uma delas.

O último dos assaltantes continuava a dança dos braços com a arma buscando mirar as pessoas alternadamente. Preocupado em controlar as pessoas começou a caminhar de costas em direção à porta, tropeçou em um dos objetos deixados pelo comparsa e se chocou  com a estante, desestabilizando-a. O ladrão instintivamente voltou o olhar para a estante e viu a caixinha de estanho balançar e ameaçar cair, segurou-a e carregando-a consigo, seguiu de costas até a outra moto e partiu em disparada. Levou, sem saber, o sonho e a fortuna da família.

Os parentes de Yoshito se abraçaram e agradeceram por estarem vivos. Yoshito permaneceu calado refletindo sobre a dura lição que a vida lhe dera. Ele era realmente um homem de sorte? Qual a lógica do que acabara de viver? Como contar à família sobre o bilhete? Sua sensação era possivelmente a mesma dos que sobreviveram à surpresa de um tsunami. Esforço e empenho, planejamento de anos destruídos em segundos pela  aleatoriedade oculta na ordem aparente da natureza ou da vida cotidiana. Na vida são inerentes eventos absolutamente fortuitos de alegria e sucesso, mas também de fracasso e sofrimento e Yoshito sentiu a necessidade de reorganizar seu pensamento diante da incerteza da vida.

O bilhete nunca foi trocado pelo prêmio e o veterinário Yoshito nunca mais jogou.

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