Solidão

ABRAÇO~1

             Huang foi o nome escolhido. A sonoridade e significado explicitava a expectativa dos pais pela geração de um homem brilhante. Era um lugar e tempo que permitia gerar e criar apenas um único filho. Os pais eram gratos à vida por não terem gerado uma filha, que com ela já traria a dívida do dote para o casamento. O menino, considerado uma benção, era um “pequeno imperador” e em torno dele os pais gravitavam para cumprir suas vontades. Contavam com a gratidão do amado filho e sua obediência à tradição para cuidar deles na velhice.

O mimado Huang formou-se em engenharia química e desde muito cedo sofria de timidez e solidão. Eram sintomas característicos de uma epidemia, comum naquela cidade, provocada pela configuração familiar de um único filho. Um único amigo e confidente era seu companheiro de vida escolar e profissional. A timidez dificultava a convivência com o sexo oposto, agravada pelo número reduzido de garotas. A rejeição cultural pela geração de meninas provocava, nas que escapavam de abortos clandestinos, fortes tendências ao suicídio, criando uma desproporção significativa entre homens e mulheres.

Huang conheceu Aline no seu ambiente de trabalho e se apaixonou. Aline preferiu namorar seu amigo, que menos tímido a cortejou, antes mesmo que ele conseguisse expressar seus sentimentos. Huang, desolado, propôs ao amigo que partilhassem a mesma namorada, ele acreditava que os três poderiam ser felizes, o afeto os unia e poderiam viver juntos a experiência de poli amor. O amigo rejeitou a ideia, considerou-a absurda e ignorou os inúmeros apelos e justificativas de Huang.

Huang abandonou o emprego, a amada e o amigo. Todos temiam que ele tentasse contra a vida, mas ele surpreendeu ao decidir mudar de país. Os pais se desesperaram, mas ele prometeu buscá-los assim que conseguisse se estabelecer. A escolha do país foi influenciada pela beleza das praias, das garotas e festas alegres e assim o Brasil tornou-se o destino de Huang.

Huang com esforço e pouco tempo dominou a nova língua e voou para o outro lado do mundo. Passou a conviver com o sorriso solto das pessoas, com cumprimentos olho no olho, com a fala descomprometida de estranhos. Surpreendeu-se quando a primeira vez que entrou em um elevador com um desconhecido, ele comentou sobre a temperatura alta e o calor insuportável, e foi gaguejando que respondeu, recebendo um sorriso de volta. Lembrou-se da diferença em sua terra, onde as pessoas não se olham e nem se falam. O sorriso é esboçado timidamente, apenas, pelos mais velhos, e mesmo assim eles quase não falam. Nesse novo e estranho país as pessoas falam de qualquer coisa, de futebol, das condições do tempo, do trânsito, do custo de vida, com quem nunca viram antes, e quem sabe nunca irão encontrar novamente.

Foi a uma praia e observou, sentado e isolado na areia, as famílias enormes chegando, adultos jovens e velhos, crianças em algazarra correndo de lá para cá, montagem de cadeiras e barracas em uma dança ensaiada. Todos pareciam falar ao mesmo tempo, rindo, sussurrando, gritando. Meninos e meninas, de diferentes idades, se juntavam em bando com outras desconhecidas para brincadeiras e diversão. Huang apreciou o mar e o burburinho do seu entorno. Sua timidez, contudo, o impediu de emitir qualquer som ou de se aproximar fisicamente das pessoas. Era um estranho em terra estranha.

Repetiu diversas vezes o passeio no mesmo cenário com a presença de novos atores. A solidão da sua existência insistia em permanecer mesmo com a mudança do entorno. Era como se a mesma trilha sonora da sua vida insistisse em permanecer como fundo musical. O ritmo lento não combinava com aquela nova agitação observada no palco.

No caminho para o hotel, sua atenção voltou-se para alguns jovens, aglomerados na calçada, onde identificou, nas proximidades, um templo religioso. A maioria deles exibia corpo bronzeado, tatuagem, cabelos coloridos. Misturou-se ao grupo e entrou no templo. No palco jovens músicos tocavam guitarra e cantavam músicas de exaltação a deus. Na plateia, canto e dança acompanhavam o ritmo da música.

Então, fez-se silêncio com a presença no palco de um homem que começou a falar da importância do amor, de amar ao outro, de olhar para aquele que deus colocara ao seu lado. Huang olhou timidamente para a bela moça ao seu lado, ouvinte atenta do missionário. Seguindo as orientações do orador as pessoas começaram a se tocar e a jovem desconhecida, ao seu lado, o abraçou. Ele não sabia o que fazer, teve ímpetos de se afastar, mas aquele primeiro toque feminino no seu corpo o inebriou, e deixou-se ficar naquele gostoso abraço. A moça chorava baixinho e ele fez com ela um coro silencioso. Depois de um tempo, que apesar das suas orações passou muito rápido, ela se afastou e voltou a cantar, acompanhando o grande coral do salão.

Para a plateia foi distribuído um sabonete perfumado. Testemunhas no palco  relatavam os milagres que aconteciam com seu uso. Para alguns, em um único uso foi eliminada a carga negativa do corpo e até doenças desconhecidas. Outros afirmavam que ele atraía bons fluidos e afetos e era responsável pela transformação da vida das pessoas. Outros ainda afirmaram que depois do usá-lo, a solidão acabou e vida passou a ser mais alegre e feliz. Huang estava mais interessado na moça ao seu lado, que ao olhar uma mensagem no celular, saiu do templo. O término do culto frustrou a esperança do retorno da bela jovem.

No hotel, Huang olhou atentamente o sabonete, reviveu o doce abraço regado a lágrimas. Usou-o no banho para ver se a espuma derretia a solidão, mas ela continuou grudada no seu corpo e alma. Tomou consciência que a solidão está presente em lugares improváveis e na vida de pessoas que aparentam alegria e felicidade. O sabonete derretendo o inspirou  a criar um perfume. Animado, relacionou os produtos que precisava e saiu para adquirir os produtos necessários.

Depois de dias de pesquisa, trancado no quarto de hotel transformado em laboratório, Huang conseguiu produzir o perfume que desejava. Observou o invólucro do sabonete e o aprimorou, etiquetando com capricho sua criação, batizada de Divino Amor.

Procurou o missionário do templo e o convenceu que o perfume era fruto de inspiração divina. Fora a sua participação no culto, o uso do sabonete que recebera que desencadeou a sua procura pelo divino e o perfume surgiu como algo definitivo para encontrar o verdadeiro amor. Naturalmente, omitiu seu encontro com a jovem.

O missionário ficou impressionado com o relato. Convocou alguns assessores que se comoveram  com a história contada por Huang. Era certo que ele recebera uma mensagem de espíritos do bem, que aquela criação aumentaria o número de ovelhas no templo e aliviaria o sofrimento de muitas delas. Ele havia sido ungido com a graça divina e o melhor de tudo, era realmente um bom negócio. Eles poderiam adquirir a produção inicial, distribuir amostras grátis e depois incentivar a compra de inúmeros frascos da  produção industrial. O depoimento do criador sensibilizaria a todos para a aquisição do perfume. Huang conseguiu uma boa negociação com a igreja para os royalties da venda do perfume.

Huang ficou milionário. Templos do mundo inteiro encomendavam infinitos frascos do perfume e muitas histórias eram contadas por testemunhas que comprovavam o seu poder divino. Amores descobertos por homens e mulheres, sucessos nas carreiras, a alegria de viver e até curas milagrosas eram relatadas e ovacionadas, em diversas plateias.

Huang hoje vive confortavelmente cuidando de seus pais nessa estranha terra que ele escolheu para viver. Incontáveis mulheres inscrevem-se diariamente para conhecer o criador do maravilhoso perfume, dispostas a uma dedicação da vida inteira.

Mas, Huang, o homem brilhante, não conta a ninguém o seu maior segredo. Ele ainda frequenta o mesmo templo e tem esperança de reencontrar aquela linda mulher e sentir no aconchego de seu abraço o verdadeiro perfume do Divino Amor.

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