Smartírio

tv-antiga

 

Ela ocupava lugar de destaque na sala há mais de uma década. Nos últimos anos, visitas se surpreendiam com sua presença e com risos incontidos sugeriam enviá-la a um museu qualquer. Objeto de resistência da obsolescência programada, sua idade se revelava pela presença de um robusto tubo traseiro. Podia ser considerada avó das jovens esbeltas, que despertam o desejo de observadores encantados, exibindo nas suas telas gigantescas a dança das imagens como pinturas em movimento.

Boa companheira, desde que chegou trouxe discretamente o mundo para dentro daquela casa sem exigir nada em troca das suas imagens. Um dia, porém, sem aviso prévio, a tela permaneceu negra sem apresentar qualquer reação a apertos dos botões. A senhora lamentou a partida da velha amiga e influenciada pelas observações dos parentes e amigos resolveu aceitar o momento como sendo de despedida e desapegar-se, desistindo de buscar um possível conserto. Limpou-a caprichosamente pela última vez, entregou o corpo inerte ao único que se interessou pela silenciosa falecida, um carroceiro coletor de material reciclável. A infelicidade pela separação foi compensada pela crença de que ela, reciclada, não causaria prejuízos ao meio ambiente e quem sabe até levasse alegria pela venda das suas partes mais valiosas. A partida iniciou a procura por uma nova TV.

Havia muitas opções o que gerou insegurança. Ela ouviu sugestões para os inúmeros tamanhos, formatos, marcas e funções disponíveis. Acabou decidindo por uma smart TV. Talvez o que tenha influenciado mais a escolha foi saber que agora era possível adquirir um objeto esperto, inteligente, que poderia compensar a falta que ela sentia desse predicado nesse mundo digital. Depois de semanas de pesquisa em folhetos, sites da internet, consulta a amigos, avaliação das medidas do móvel e da distância ideal para observar as imagens, escolheu a sua futura amiga e anotou o modelo e marca. Agora era só ir conhecê-la pessoalmente, compra-la e esperar pela instalação.

No primeiro encontro realizado em uma loja gostou do que viu, o design era bonito e as imagens coloridas impressionavam pela nitidez. Aí se surpreendeu com o fato dela ser apenas uma peça de mostruário sem disponibilidade para compra e saber que entrega e instalação era coisa do passado. Resistiu a sugestão do demonstrador de produto para realizar a compra pela internet e foi a outra loja. Preferia observar os objetos reais, conversar olhando nos olhos do vendedor e foi assim que a encontrou em funcionamento ao lado de uma pilha de caixas, que aguardavam, como em uma prateleira, o “pegue e leve”. O gentil rapaz, também um demonstrador do produto, explicou que a instalação era muito simples bastando seguir o manual que a acompanhava embora ele não tivesse um disponível. Ela acreditou nas palavras pois os olhos do jovem pareciam sinceros. Ajustou o pacote comprido e fino no carrinho do supermercado, como se fosse compra semanal para suprir as necessidades de produtos alimentares e de limpeza da casa. A única diferença foi a nota fiscal para a garantia do produto, mas testar e vê-la funcionando, nem pensar, coisas do passado.

Em casa, ao abrir a caixa sentiu-se como diante de Pandora e suas surpresas. O manual era uma folha dobrada e compreendê-lo era como decifrar hieróglifos. Os desenhos eram irreconhecíveis, as letras exigiam visão de lince ou de lupa. O primeiro desafio foi montar a tela no suporte. Não havia indicação de parafusos, talvez a tecnologia os tivesse eliminado como aos antigos serviços. Com a ajuda de um velho amigo, também da era analógica, iniciou a montagem do suporte, usando a metodologia de ensaio e erro. Ao conseguirem acertar os encaixes o colocaram sobre o móvel. Ao acoplar a tela o amigo insistiu que o sistema estava instável e que as perfurações existentes no suporte indicavam a necessidade de parafusos. A caixa foi revirada e não foram encontrados parafusos e ela insistiu na hipótese que a TV era smart, não precisava de algo antigo. Mas, ao abrir o invólucro do controle remoto de dentro dele surgiu um pequeno plástico com alguns parafusos, instalados pelo amigo o que tornou o sistema estável. Foi por pouco, muito pouco que a tela não despencou e quebrou antes mesmo de ser ligada.

O segundo desafio foi acoplar a smart ao sistema de TV a cabo. A observação dos minúsculos esquemas desenhados não correspondia ao objeto real ao vivo e em cores. Nova bateria de ensaios e erros com a TV ligada, mas sem sucesso. Restava como alternativa ligar para o suporte da operadora do sistema de transmissão a cabo e pedir orientação. Depois de ouvir a oferta de centenas de serviços maravilhosos da operadora, digitar vários números após opções duvidosas, esperar, fornecer diversas vezes os dados do cadastro, anotar o número de um protocolo com dezenas de algarismos por duas vezes, ufa, ela conseguiu explicar seu problema ao técnico do suporte. Mas, ele somente repetia a mesma frase como se fosse um papagaio: “ o problema é dos cabos”, “ o problema é dos cabos, aqui está normal”. Essa constatação dele era dispensável, pois foi o que mobilizou o telefonema: descobrir qual a conexão adequada para os cabos. Foram cinquenta minutos em tons alterados, ouvindo a mesma ladainha acompanhada de pausas de silêncio, justificadas pelo técnico, como consultas ao sistema. Exausta, com a orelha ardendo a senhora passou o telefone ao amigo para ver se ele tinha mais sorte na empreitada. Mais uma hora de testes de cabo para lá e para cá até o técnico confessar que ele não entendia de cabos. Depois de mais meia hora e descargas incalculáveis de adrenalina solicitou-se ao atendente que providenciasse uma visita técnica e ele informou que haveria cobrança para solucionar o problema. O telefonema foi encerrado e a aventura suspensa por falta de paciência dos envolvidos e adiada para o dia seguinte.

O técnico da operadora da TV a cabo fez a visita e ao ligar os cabos constatou que um deles, necessário ao processo, não existia. Esclareceu que técnico que instalou o equipamento da operadora deveria tê-lo deixado, mas como ele não era necessário na ocasião deve tê-lo levado e provavelmente vendido. Agora era preciso pagar por outro cabo. Mal atendimento e exploração são efeitos colaterais de um serviço cobrado mensalmente.

Faltava ainda a instalação da internet na TV. Ela já havia realizado algumas tentativas, mas com a sopa de letrinhas constatou que necessitava de ajuda. O técnico detectou que o problema era o equipamento desatualizado pois o plano era antigo, mas que ela podia solicitar outro a que tinha direito. Para isso era preciso ligar, novamente, para a operadora e pedir atualização, ele não poderia fazer isso sem autorização e partiu.

Depois da pausa para digerir a raiva, nova ligação e a enervante série de etapas e muita paciência até conseguir falar com a atendente. O atendimento durou mais de quarenta minutos; a jovem saiu do ar diversas vezes para consultar o sistema provocando inúmeras pausas de silêncio. Finalmente foi informada que para conseguir o novo equipamento era preciso mudar o plano, pagar mais, acessar menos canais e assumir o custo para a instalação. Ela desistiu e desligou ao som da última irritante frase da atendente: “ a operadora agradece sua ligação e continuamos à sua disposição”.

Ela chorou não sabe exatamente se de raiva ou saudade da simples e velha companheira analógica que não era smart , mas que nunca a fizera se sentir tão idiota. Desolada, sabia que o “smartírio” era uma série em tempo real e que no dia seguinte ela viveria mais um capítulo inédito como personagem coadjuvante.

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7 comments

  1. arlete stivaletti filgueiras disse:

    Hoje a gente fica refém de operadoras e tvs modernas que só faltam falar. mas para fazer o mínimo que a gente quer, ou seja, ver tv é esse drama. A minha às vezes congela a imagem e não há reza que faca ela voltar. Saudades do velho tubo………

  2. Maria Elisa Napolitano disse:

    Já passei por isso, ou quase! Impressionantemente verdadeiro é tudo o que está descrito no texto. Como é triste envelhecer!

  3. Consuelo Fernandez disse:

    Ivetinha adorei seu smartirio. Como sempre deixou aflorar sua criatividade para tornar a gente um tanto mais alegre. Otima leitura para uma madrugada insone. Valeu!!!

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