Resguardo

Final da década de 60, rosto sem maquiagem, voz doce e divertida, olhos vivos e um lindo e marcante sorriso. Roupas longas e coloridas jogadas sobre o belo corpo e rasteririnhas exibindo os pés. São essas minhas lembranças dela da época de universidade. Dele, a recordação é de uma voz potente, grave, que abria caminho, anunciando sua chegada. Educado pelas tias, sua aparência exibia o contraste entre a formalidade exibida pela roupa e o humor cáustico e transgressor. Entre eles, a forte amizade ampliou o convívio para fora do campus.

Ela se apaixonou e casou com um descendente de índio, que exaltava a vida natural. Um espírito zen, que abominava coisas da civilização como antibióticos, responsabilidade e trabalho. Para o casamento, trouxe como dote, um filho de aproximadamente 5 anos. Ela engravidou e inspirada por ele, resolveu parir em casa. O amigo tentou convencê-la das contribuições médicas para um parto mais seguro, com acompanhamento, evitando os  possíveis riscos e surpresas da chegada de uma nova vida. Mas, foi em vão.

A tia daquele amigo sincero, ao saber da gravidez, iniciou um belo trabalho de tricô para presentear o novo bebê. A roupa foi tecida em pontos recheados de capricho e carinho salpicado do sentimento de amizade do sobrinho. A tia era prendada e solteira, dizia que gostava de ser independente, e não queria se submeter aos caprichos de homem nenhum, não ia sustentar vagabundo.

O bebê, felizmente, nasceu sem qualquer problema ou obstáculo. E os amigos, curiosos, queriam constatar se tudo estava bem, com a mãe e com o bebê. Assim, a tia e o grande amigo foram dar as boas-vindas à criança.

Dias antes do parto o índio foi picado, nos joelhos, por um inseto qualquer. Sem os cuidados civilizatórios ou indígenas para o problema, a inflamação se espalhou. Ele, com dificuldade de andar, e até mesmo ficar em pé, permanecia deitado em um colchão, bem no meio da sala.

Nem tia nem sobrinho estavam preparados para o que iriam encontrar naquela visita. O garoto de 5 anos, atendeu a porta, os recebeu e os encaminhou para a sala. Lá estava o índio deitado, esparramado no chão, com os joelhos que mais pareciam cabeças de dois bebês. A mãe de primeira viagem, ia para a cozinha, voltava com compressas para o índio, pegava seu bebê no colo para mamar, atendia as visitas, orientava a mãe para alimentar o garotinho. Voltava para a cozinha e mais compressas, ouvia as reclamações do índio, falava com a mãe dela, colocava o bebê para arrotar…

A tia ficou zonza só de observar a agitação, e nem teve a oportunidade de mostrar a peça que teceu com tanto carinho. Seus olhos não conseguiam se afastar daquele homem deitado no chão, imóvel, só reclamando, sem falar ou fazer absolutamente nada. A avó do bebê notou e se aproximou dela, tentando explicar que índio é uma raça diferente, a gente estranha, mas é assim mesmo. A mulher tem o filho e ele repousa. A tia somente olhou para a avó do bebê, meneou a cabeça como que concordando, e solicitou ao sobrinho que fossem embora. Deu uma desculpa qualquer, pois sabia que ninguém ali iria ouvir ou prestar atenção.

Ao entrarem no automóvel, de volta para casa, a tia enlouqueceu. O silêncio forçado de minutos, que pareceram horas, naquela situação caótica, transformou-se em fala e gestos incontidos. Desatacava o absurdo daquele índio deitado e esperando ser atendido, o menino, mais ativo e prestativo que o pai, a avó do bebê tentando justificar aquela escolha infeliz da filha e por aí foi. A viagem foi insuficiente para desabafar tanta indignação. O assunto permeou as conversas, por muitos dias.

Uma semana depois a mãe do bebê perdeu a paciência, acionou um médico conhecido, que injetou antibiótico no índio, (mesmo sob protesto) para diminuir a inflamação, que já se tornara infecção. As pernas foram salvas, mas o casamento, não.

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