Promessa de ano novo

Com mais de setenta anos de idade, disposto e animado, aceitou o convite de um querido amigo, residente nos Estados Unidos e em passagem pelo Rio de Janeiro, para assistir as festividades da virada de ano, em um apartamento de cobertura em Copacabana. Embora não apreciasse a cidade em que viveu durante anos, a possibilidade de rever o amigo superou as restrições existentes em relação ao local. Em São Paulo, com passagens de avião esgotadas, adquiriu uma de ônibus leito para a ida, imaginando que não haveria problemas para o regresso previsto para o primeiro ou segundo dia de janeiro.

Chegou pontualmente para o embarque às 7 horas da manhã, tomou o seu lugar e a viagem iniciou no horário previsto. Meia hora de estrada depois, ele buscou o celular para informar que se encontrava a caminho para o amigo e outras pessoas cariocas queridas. O celular, no entanto, permanecera carregando, esquecido em um canto da casa. A surpresa do esquecimento evoluiu para um sentimento de pânico. Como manter contato? Tomou consciência que não sabia nenhum dos números de telefone, nem mesmo o endereço do amigo.

As diversas tecnologias expandiram a memória humana. A escrita dispensou a memorização das informações, tornou-se possível registrá-las e consultá-las. O telefone, inicialmente fixo, permitiu vencer distâncias na relação entre as pessoas. A frequência do contato e discagem constante dos números, correspondentes ao telefone das pessoas, permitia a memorização de pelo menos uma dezena deles. Listas de telefone, uma caderneta pessoal com a relação das pessoas mais próximas, permitia localizar os números de contato. Os celulares possibilitaram o registro de contatos, informações de números de telefones, e mail, etc. em seu banco de dados.Eliminou a necessidade de digitar os números de contato. Localiza-se o nome, vê-se a foto da pessoa, clica-se no pequeno ícone e a ligação é completada automaticamente. Nossa memória foi transferida para esse pequeno objeto, está na palma da mão, e é ativada por um simples toque digital. Memorizar números de telefone é coisa do passado.

Ele buscou em vão lembrar do número de telefone de uma pessoa conhecida. Mesmo os  dos familiares, que contatava constantemente, a lembrança era de um ou dois números finais, insuficientes para um contato. Só, ao lado do leito que ocupava, sentia o corpo acompanhar o sacolejar do ônibus e não conseguia uma solução. Pensou falar com o motorista e interromper a viagem, mas ele o deixaria na estrada, sem alternativa para alcançar uma cidade próxima. O melhor talvez fosse ir até o destino final e embarcar de volta no próximo ônibus disponível.

Conformou-se com essa solução,  mas de repente, lembrou-se que há alguns dias atrás, esse amigo lhe pediu o telefone de uma pessoa carioca de relacionamento comum. Ao fornecê-lo o amigo chamou sua atenção para a combinação dos números. O número do telefone repetia inicialmente duas dezenas, depois uma dezena diferente com o mesmo número, e finalizava repetindo a mesma dezena inicial. Eles riram da estranheza do número o que o fez lembrar qual era a dezena repetida duas vezes no início e uma no final. Mas, ele não conseguia se lembrar da dezena diferente com número repetido. Buscou refazer na lembrança a conversa com  amigo, mas nada. Depois de um tempo desistiu de recordar o número.

Olhou pela janela observou a paisagem e ao tentar localizar referências para identificar em que parte da estrada se encontrava, o quanto faltava para chegar ao destino, lhe veio a memória a dezena 77. O número de telefone estava agora completo. Vibrou e anotou aquele precioso e estranho número de telefone, o único presente na sua memória. Esse número permitiria estabelecer contato e adquirir os demais que necessitava. Tentou desligar, mas pensamentos recorrentes o continuaram preocupando, como a possibilidade da pessoa ter viajado, estar fora de área ou mesmo não responder ao telefonema que iria dar.

Muita ansiedade depois e ele chegou ao seu destino. Na rodoviária dirigiu-se a um posto de atendimento a turistas. Contou seu problema e solicitou orientação para realizar algumas ligações. Os atendentes informaram que não havia disponibilidade para atender a essa necessidade. Não havia telefones disponíveis para o público e tentaram encaminhá-lo para uma operadora para que adquirisse um aparelho. A falta de sensibilidade, de atenção o fizeram reviver a desatenção e rejeição que enfrentou no tempo que viveu nessa cidade. Sua raiva lhe subiu à cabeça, mas se dirigiu à saída, sem dizer nada. O atendente gritou perguntando de  onde ele era. Voltou-se e respondeu que era de um lugar onde as pessoas eram mais sensíveis com o problema dos outros e onde ele iria precisar de passaporte para entrar, de São Paulo. Afinal, ele não deveria ser o único ser no mundo que precisava fazer uma ligação e não ter telefone. Se não havia protocolo para isso, buscar uma solução era obrigação para quem atende turista

Dirigiu-se, então, a companhia de ônibus em que viera, repetiu seu problema a uma atendente pedindo que o ajudasse como última boa ação do ano. Já se preparava, no entanto, para comprar a passagem de volta. A jovem sorriu e ofereceu o celular dela para  a ligação. Ela mesma completou a ligação e ele quase não acreditou quando ouviu, do outro lado, uma voz conhecida. Solicitou o número de telefone do amigo e de uma amiga carioca, que com certeza o ajudariam. Recebeu e anotou os telefones. A jovem realizou mais uma ligação para a amiga que o convidou para ir à casa dela. Perguntou à sua salvadora como demonstrar sua gratidão e ela pediu que ele fizesse uma gentileza a alguém que necessitasse. Gesto que o fez crer, novamente, na bondade humana e superar a desatenção que sofrera há instantes.

Ele viveu feliz nos dias que se seguiram com os reencontros e comemorações para o novo tempo. Esqueceu por um tempo as desventuras pelas quais passara.

Ao chegar bem cedo na rodoviária para a volta, somente conseguiu passagem para o final da tarde. Entrou na área de embarque, acompanhando os que iam embarcar mais cedo. Abordou um motorista com sua passagem, solicitando ajuda para embarcar em qualquer ônibus que saísse mais cedo e tivesse um lugar disponível. O motorista o acompanhou até a plataforma em que um ônibus leito se preparava para sair, falou com o responsável que informou haver dois lugares não preenchidos. Intercedeu, acertou a passagem e o embarcou. Ele agradeceu ao motorista, ressaltando que recebera dele a primeira boa ação do ano novo, que ela fora dedicada a um velhinho, e finalmente partiu.

Durante a viagem lamentou o que viu na rodoviária, as pessoas que mendigavam, o atendimento precário aos turistas, e sorriu ao recordar o susto com a abordagem agressiva de uma pessoa para carregar sua mala, que o fez confundir a solicitação com um assalto. Lembrou da gentileza daqueles que lhe dedicaram a última boa ação do ano que estava terminando, e a primeira do novo ano. O mundo é plural, em qualquer lugar  há pessoas boas e gentis dispostas a realizarem boas ações, agressivas e insensíveis como os atendentes burocratas, carentes e dependentes como os que mendigam e os que batalham um “troco” realizando um trabalho qualquer, como carregar malas.  Pensou, também, na aventura que foi viver uma viagem sem celular, na dependência que criticava nos jovens e que acabou voltando-se contra ele.

Em casa, observou o celular sobre a mesa e tomou uma decisão para o novo ano. Anotou em uma folha de papel uma dezena dos telefones, que considerava mais importantes, dobrou-a cuidadosamente e a acomodou junto de seus documentos. Prometeu a si mesmo que iria decorar todos eles. Era sua promessa de ano novo, reaver a independência de parte da sua memória, que se encontrava presa no celular.

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