Prato Predileto

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Programou um almoço com um amigo querido. Ele em recuperação de pequena cirurgia, que ainda requeria cuidados e atenção, sugeriu que o almoço fosse na casa dela. Ela não se recordava de qualquer elogio recebido nas suas poucas aventuras culinárias e o velho fogão, com mais de 30 anos, era menos um eletrodoméstico e mais uma peça de decoração. Embora insegura com a proposta, resolveu enfrentar o desafio.

                      O prato predileto do amigo era peixe acompanhado de legumes e verduras e ela lembrou-se de uma velha receita de sua mãe, com muito azeite e azeitonas, com um preparo que não considerava complicado. Faltava uma sobremesa caprichada, algo para a entrada, e quem sabe, um bom vinho.

                     Para providenciar o vinho e os ingredientes para a entrada e sobremesa foi ao supermercado. Ainda na garagem um jovem funcionário, talvez sensibilizado pelos seus cabelos brancos, lhe ofereceu um carrinho informando que eles estavam sendo disputados. Observou na entrada um grande aviso indicando quer aquela loja participava do movimento Black Friday, prometendo descontos arrasadores nos produtos. Desconfiada, observou que havia uma multidão presente, que como ela, iria verificar a veracidade da promessa.

                     A seleção dos produtos que desejava comprar era lenta, pois nos espaços entre as gôndolas havia uma romaria de gente caminhando, reclamando dos preços, comentando sobre melhores ofertas em outros supermercados, pegando e retornando produtos nas prateleiras. Nas paradas necessárias para acessar os produtos ela e o carrinho eram atropelados, empurrados, espremidos. Para evitar acidentes fatais estacionou o carrinho no corredor mais próximo. Com ágeis desvios das pessoas desvairadas, saltou produtos destruídos e abandonados pelo chão, e aguardou, com paciência, acessar o último produto para completar sua compra. Ao retornar ao local onde havia estacionado o carrinho constatou, incrédula, seu desaparecimento. O que fazer? Oferecer um valor para resgate do carrinho sequestrado no alto falante da loja? Exigir o fechamento das portas para impedir a saída do sequestrador? Dar vazão a sua raiva e gritar até que lhe devolvessem suas compras?

                   Limitou-se a consultar uma repositora que não se surpreendeu com seu relato, ele não era o primeiro e não seria o último da noite. Carrinhos desacompanhados, mesmo por segundos, costumavam desaparecer misteriosamente. Depois de agradecer e dispensar a gentileza da repositora que insistia em conseguir novo carrinho, decidiu ir embora. Não aguentaria recomeçar as compras depois de horas de maratona. No caminho até a saída olhava para o rosto das pessoas pensando: Será esse o sequestrador? Seria esse o carrinho desaparecido? Qual o destino dado aos produtos que iria comprar? Foram jogados no chão ou abandonados em local qualquer? Será que o sequestrador tem filhos e esse é o exemplo de cidadania que oferece a eles?

                    Frustrada e indignada dirigiu até uma padaria e comprou pão para a entrada, sorvete para a sobremesa e um suco de uva para substituir o vinho.

                    Dia do almoço. Manhã dedicada aos cuidados com o tempero, preparação, arrumação cuidadosa da mesa. Salada e arroz aguardavam o momento para acompanhar o peixe regado a muito azeite, que repousava no forno, entre legumes, verduras e azeitonas, arrumados em uma travessa térmica.

                    Como em todo encontro de amigos, o clima era de festa. Ele falou da cirurgia com bom humor e dispensou a entrada para aproveitar melhor o seu prato predileto. Ela contou o misterioso roubo do carrinho, justificando a simplicidade da entrada, da sobremesa e da ausência do vinho. Algumas risadas depois, foram para a cozinha saborear o prato principal.

                     Ao retirar a travessa do forno ela a viu deslizar entre as luvas térmicas, despencando e atingindo o chão, sem escala. O choro ficou entalado na garganta e sem coragem de olhar para o amigo, observava fixamente o peixe, os legumes, espalhados no azeite e cobertos pelos cacos da travessa. Sem saber o que fazer abaixou-se lentamente, na direção dos cacos.

                      Ele rapidamente impediu que ela os atingisse, pois deviam estar ainda muito quentes. Com voz firme a orientou para tarefas práticas, como fechar a boca aberta e quente do forno, desligar o seu aquecimento, sair da cozinha, ver se não se queimara com o azeite que escorria pela roupa. De cabeça baixa, sem reagir ou falar, ela apenas obedeceu.

                      Em silêncio, limparam a lambança: recolheram e embalaram os cacos, a comida, lavaram a cozinha. Então, apesar de envergonhada, ela adquiriu coragem para olhá-lo e se desculpar pela falta de jeito. Ele entregou a ela um copo com quatro azeitonas intactas, que conseguira salvar do prato predileto. Os dois caíram na gargalhada.

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One comment

  1. Consuelo Fernandez disse:

    Conto perfeito, parece até que eu estava lá, participando da lambança. Adorei,

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