Os tios

tios-copia

Tempo de férias, de encontro e convivência com tios e primos no sítio. Aproveitar os dias correndo soltos e inventar brincadeiras pelos campos. Pega-pega, subir nas árvores, comer os frutos no pé, mergulhar no rio, observar o tio Odair trabalhar na roça, descobrir insetos, pássaros, animais de todo tipo e tamanho.

Era ao entardecer que tinha início a grande aventura. Primeiro o banho frio, de canequinha, e a vistoria da tia Irma. Ela conferia detalhadamente em cada um a limpeza das orelhas, pescoço e pés e somente então liberava as roupas limpas e a ida para a sala de jantar. Na sala já estava o tio Odair, sentado ao lado do grande astro da casa, que imponente, repousava na estante. Os sobrinhos acomodavam-se em volta para assistir ao ritual.

A grande caixa era de madeira entalhada. Na frente um visor com números e um dial, abaixo dele dois botões, um para ajustar a sintonia e o outro para o volume. Atrás da caixa havia dois fios com as pontas desencampadas que tio Odair cuidadosamente enrolava nos parafusos de uma bateria externa, apertando-os em seguida. Essa operação ligava o rádio e fazia o som, acompanhado de muitos chiados, invadir a casa.

Os dedos calejados da lida giravam com delicadeza os botões, buscavam sintonizar a emissora. O som, muitas vezes tornava-se inaudível e era com muita paciência que o tio regulava, alternadamente, um e outro botão para fazer chegar as notícias de um mundo longínquo e misterioso.

A penumbra ia tomando conta do ambiente e as crianças se ofereciam para acender as lamparinas e o tio Odair sorrindo, consentia, para a alegria da meninada. Todos ajudavam na empreitada, que era silenciosa para não atrapalhar as notícias.

Uma a uma as lamparinas inundavam o ambiente de luz tênue, projetando sombras nas paredes. Cada criança usava as mãos e movimentos do corpo para obter estranhas figuras, que muitas vezes provocavam risos. O pedido de silêncio pelo tio reiterava a importância que atribuía às informações que chegavam pelo rádio. A tia Irma deslocava-se do fogão para a mesa, arrumando os pratos e preparando o jantar, sem que se ouvisse qualquer barulho.

Ao final do noticiário, tio Odair desconectava os fios dos parafusos, desligava o rádio da bateria, e sentava-se à mesa, seguido de todos, que, então, falavam sem parar, comentando as aventuras do dia e do mundo das sombras construído na parede.

Terminado o jantar, enquanto tia Irma cuidava da cozinha, o tio Odair divertia a todos com jogo de cartas. Ensinava regras, realizava truques, e propiciava engraçadas partidas, até a hora de dormir. Cansados das brincadeiras do dia e da noite, todos iam para a cama descansar e se preparar para o recomeço do dia seguinte.

A falta de energia elétrica não era um problema, mas parte da diversão. O convívio nesse estranho mundo não possuía telas para intermediar as relações. Havia apenas um rádio à bateria, que por uma hora impunha silêncio, para se ouvir uma estranha voz falando de um mundo distante.

Os velhos tios sabiam como agradar as crianças, como possibilitar de forma muito simples, convivência marcante nas relações familiares e nas lembranças e saudade que deixaram por toda uma vida.

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One comment

  1. Consuelo Fernandez disse:

    Ivetinha, seu conto me aproximou um pouco da minha infância, não pela falta de luz, mas pelas vozes conhecidas que saiam daquele aparelho quando ligavamos para ouvir as aventuras de Gerônimo, o Heroi do sertão. Bom tempos, bom conto.

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