O desaparecimento do anarquista

Sua vida era nômade. Embarcava em diferentes navios, desaparecia da sua cidade durante o tempo da viagem. Viver para ele era não ter regras, amarras, poder gozar da liberdade em sentir e agir. Havia, no entanto, um porto seguro, os braços de uma mulher que despertara sua paixão e que aceitava esse estilo de bem viver. Ela o compreendia, como ninguém. Admirava e amava aquele belo homem e confiava no seu afeto.

A família, amigos, todos foram contra o relacionamento dela, e não faltaram alertas para as dificuldades que iria enfrentar. Um anarquista, desapegado de laços, iria viver não mais que uma relação transitória, e ela, com certeza, seria abandonada em pouco tempo. Mas, durante anos, ele sempre voltava, e embora não fosse fácil, cuidar, praticamente sozinha, das quatro filhas que tiveram, ela era feliz, sentindo-se amada e compensada nos momentos em que ele estava presente.

Nas viagens, ele conheceu inúmeras cidades, diversas culturas e incontáveis pessoas com diferentes hábitos. De cada um dos lugares trazia uma joia para a companheira e muitas histórias para contar às filhas. A amada e as filhas o acolhiam sempre, aproveitando cada segundo da aguardada presença. Em uma caixa, ela acomodava cada peça do tesouro que ele trazia e no coração registrava a doçura de sua companhia.

As filhas aprenderam a amá-lo na presença e na ausência e a mais velha, Raquel era conhecida, na comunidade, pelo sobrenome que recebera do pai, motivo de orgulho para ambos. O trabalho realizado nos navios rendia boas quantias em dinheiro, todo ele entregue à mulher. Ela administrava, com parcimônia, cada tostão, para que rendessem até a nova chegada. A partida era sempre acompanhada de tristes despedidas, com o choro dela e das filhas e o sorriso dele, garantia de um breve retorno.

A vida seguia lenta na sua rotina, interrompida pelas chegadas e partidas. As crianças cresciam e os pais envelheciam. Até que o destino, senhor do tempo, os surpreendeu. Os dias foram passando, transformaram-se em meses e nada dele aparecer. No começo, a demora foi interpretada como atraso, depois como algum infortúnio e finalmente como abandono. Para sobreviver, sem dinheiro, ela teve que vender as preciosas joias que tão carinhosa e orgulhosamente guardava. A preocupação transformou-se em raiva. Nenhuma palavra, nenhuma notícia, nenhum lugar em que pudesse procurá-lo. Tentou recordar dos detalhes da última partida para identificar algum sinal de que ele não iria voltar. Não, conseguiu detectar nada. Interpretou que ele se cansara dela e dos filhos e que buscara novo porto, novo amor, nova família. Secou suas lágrimas, calou suas queixas, e não respondeu mais a nenhuma pergunta das filhas sobre ele. Guerreira que era, além da venda das joias, passou a lavar e passar roupa para fora, fazer doces e guloseimas para vender, enfim, lutar para conseguir o sustento dela e das filhas.

Já se passara mais de um ano, quando um navio aportou na cidade. Um marinheiro resolveu andar pela cidade e parou para observar a brincadeira de algumas crianças na praça. As meninas gritavam pelo nome, umas das outras para formarem um time de jogo. O nome de uma das garotas, um sobrenome, chamou sua atenção. Ele se dirigiu a garota e perguntou o nome dos pais dela. Ao ouvir o nome do pai da menina e saber que ele trabalhava em navios, ficou lívido e pediu para que ela indicasse onde morava sua mãe. A garota indicou onde ficava a casa dela, bem perto de onde se encontravam.

O marinheiro dirigiu-se para a casa indicada com o pensamento desalinhado. Ele estava na cidade em que sabia que o anarquista morava e ouviu a garota ser chamada pelo sobrenome dele. Era coincidência demais e ele se tornara, sem querer, um portador de notícias.

A mulher o recebeu na cozinha com uma caneca de mate. Ao saber que receberia notícias do pai de suas filhas, conteve, com grande custo, as lágrimas. Aquele homem deveria conhecer a nova mulher de seu homem e o olhar dele ao fitá-la deveria estar fazendo comparações com a outra. Instintivamente quase o expulsou, mas resolveu se acalmar. Sentou-se, olhou bem no fundo dos olhos dele, e ouviu o último capítulo da história do seu amado, que estaria perdido para sempre, não fossem as coincidências da vida.

O marinheiro, com voz calma, contou que viajara muitas vezes com o anarquista, uma pessoa muito querida de todos, bom profissional, mas que falava pouco de si, a única informação que tinham era a cidade onde ele embarcara. Durante a última viagem que fizeram juntos, ele passou mal e quando o navio atracou em Nova York, foi levado, sob protesto, a um hospital. Foi detectado um problema de pedras no rim, ele foi operado e sua recuperação exigia tratamento por alguns dias, no hospital. Ele acordou, e provavelmente se viu sozinho, saiu andando sob a neve, e se sentou em um banco numa praça próxima. Foi encontrado morto, provavelmente de frio. Desolados, providenciamos seu enterro, mas não sabíamos a quem avisar.

As lágrimas rolaram pelo rosto dela, trazendo alívio de não ter sido traída e profunda tristeza pela certeza que nunca mais iria ver o seu amado. Ele morreu como viveu, sem se submeter a imposições, mesmo que isso significasse enfrentar a morte.

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