Morador de rua

Há meses, ao me deslocar de automóvel pelo bairro, observo uma mulher gorda, negra e que aparenta em torno de uns sessenta anos de idade. Sentada em uma cadeira de praia, com uma mala e inúmeros sacos plásticos, ela alterna os locais de permanência, dependendo, se é dia ou noite, em portas de estabelecimentos comerciais, lojas, restaurantes, lavanderia.

Em uma manhã fria de outono andando a pé, a vi de perto pela primeira vez. Ela estava na mesma cadeira, enrolada em um cobertor. Ao pressentir minha passagem, ela descobriu o rosto, e por breve momento, nossos olhares se cruzaram. Logo em seguida, ela se cobriu e impediu contato. Parei ao seu lado e como ela não se moveu, me senti verdadeiramente intrusa, invasora, e segui meu caminho.

Os objetos, que ela carrega, se multiplicaram nesse tempo que a observo. Doações de que podem propiciar melhores condições de sobrevivência, de enfrentar o frio, a chuva, a fome e a sede. Sem casa como abrigo, local fixo de proteção e segurança, tem como única moeda a oscilante generosidade das pessoas para comer e beber. A dignidade e o futuro não existem. O hoje, o agora, é seu único tempo. Não há projeto, nem amanhã. Um ser em um mundo de excluídos invisíveis. Qual será sua história vivida ou inventada?

Essa questão me fez lembrar da minha infância, da primeira pessoa que conheci como morador de rua. Ele era um mulato de aproximadamente 30 anos. Chegou de repente no conjunto residencial onde eu morava, carregando nas costas um saco com alguns pertences. As crianças e os adolescentes curiosos logo se aproximaram dele. Muito falante, afirmava ser Kid Moreno, um artista de rádio. Ninguém o conhecia e ele confirmava a história mostrando um disco de vinil gravado por ele.

Todos se condoeram com a história e se mobilizaram para melhorar as condições de vida daquele talentoso cantor. Comida, suco, roupas limpas, sapatos, produtos de higiene pessoal foram arrecadados junto às famílias e doados. Providenciaram, ainda, local coberto, embaixo da escada de um dos prédios, com roupas de cama, travesseiro, cobertor, para seu conforto. Kid Moreno com os novos fãs pretendia resgatar sua vida e seu papel de talentoso cantor.

Os pais desconfiaram da história e das intenções de Kid Moreno, mas os novos fãs usavam o vinil como prova e que além do disco, havia  um álbum com recortes de jornais e revistas, que Kid Moreno mostrava para comprovar seu sucesso. Na época, não havia computador e muito menos internet e então o disco e os recortes eram provas físicas irrefutáveis.

E assim, Kid Moreno foi vivendo patrocinado pelos seus novos admiradores. Em troca eles ouviam histórias de sucesso e de intimidades com conhecidos artistas. Cantarolava músicas de sucesso e algumas desconhecidas, que ele afirmava ser  composições de sua autoria. Estar diante de um artista famoso encantava a todos os jovens. Algumas vezes perguntavam como ele perdeu tudo e ele se emocionava, quase chorava, e todos desconversavam.

Kid Moreno apresentou aos fãs um plano para melhorar sua performance e resgatar sua antiga vida. Pediu ajuda para conseguir um violão, e um dos garotos, que aprendia tocar, tentou convencer os pais para o empréstimo do instrumento, mas não obteve sucesso.

Já fazia duas semanas que Kid Moreno convivia e encantava os garotos. Passava seus dias na praça do condomínio, rabiscando no caderno doado, suas novas composições e aguardando companhia. Os meninos mantinham suas rotinas de estudo, mas substituíam as brincadeiras por longas conversas com o talentoso cantor. Despertavam inveja nas meninas, proibidas pelos pais de se aproximarem dele.

A televisão, a grande novidade, em alguns apartamentos ocupava um lugar de destaque nas salas e criava novas rotinas de convivência nas famílias. Os pais exigiam a presença das crianças para o jantar e depois no sofá diante da nova tela.

Os meninos contavam a um Kid Moreno interessado, sobre os programas nesse novo meio de entretenimento. O cantor falava de seus projetos de voltar a ser famoso, agora na televisão, e dos ingressos que iria distribuir a todos. Nas despedidas diárias lamentava não ter uma televisão, nem mesmo um rádio para ouvir, e como sua vida era solitária à noite, depois que os garotos se recolhiam.

Dirceu, um dos garotos comovido com os lamentos de Kid Moreno, teve a idéia de conseguir um rádio de pilha para ele. Somente Roninho, o mais velho da turma, possuía esse objeto de desejo de todos, e não emprestava para ninguém. Os garotos juntos construíram uma história para o Dirceu conseguir o empréstimo. Roninho, no início irredutível, se sensibilizou com o castigo descrito pelo Dirceu, da sua mãe exigir que ele ficasse sozinho num quarto escuro. A situação confirmada pela turma o fez ceder. Dirceu agradeceu e prometeu que no dia seguinte o devolveria. Correram para entregar o rádio de pilha para Kid Moreno que se emocionou e até ameaçou chorar.

No dia seguinte os meninos não mais encontraram Kid Moreno, o colchonete, o travesseiro, a roupa de cama, o saco recheado de doações e o rádio de pilha.

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2 comments

  1. Dirceu disse:

    Mesmo se não tivesse sido um dos personagens da história, ao lembrar-me dos fatos, do lugar e de cada um dos amigos, levou-me às lágrimas… Tempos de inocência, éramos, estimada Ivete, felizes. Parabéns,minha saudosa amiga, pelo excelente conto.

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