Ganhos e perda

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Nossa história começou há quase dezessete anos. Ela tinha pouco mais de um ano de vida, raça indefinida, lembrando um poodle. Ela chegou, devagarinho, na casa de campo, pedindo apenas um pouco de carinho. No cantinho da varanda permanecia em silêncio, com olhar agradecido. Cada fim de semana, era difícil partir e deixá-la. Em pouco tempo ela pressentia minha chegada e corria para encontrar o automóvel na estrada, acompanhando-o, latindo, girando, em uma grande algazarra. No momento da partida, corria até onde seu fôlego aguentasse e ficava parada, sentada, olhando o automóvel desaparecer na estrada.

Ao chegar, em um final de semana, a encontrei se arrastando pela estrada, fraca e quase sem forças. Peguei-a no colo e ela pareceu sorrir. Um veterinário a avaliou e indicou tratamento diário para recuperação. Para cuidar dela e salvá-la a alternativa era trazê-la para a cidade. Todos foram contra, ela era um animal criado solto no campo, não iria se acostumar, destruiria móveis, objetos, tudo; não era bonita e tinha muitos carrapichos Apesar das resistências ela veio comigo. Retribuiu se comportando como se tivesse andado de automóvel ou vivido em apartamento por toda sua vida. Uma gata borralheira do campo que se transformou em uma Princesa da cidade.

Conviver com ela foi um presente. Adorava passear e essa palavra para ela era mágica. Rodava, pulava e se posicionava aguardando a colocação da coleira. Na companhia dela conheci o bairro todo, andando pelas ruas, subindo e descendo ladeiras, descobrindo becos, e fazendo amigos por onde passava. Se tivesse que ir a uma loja ou supermercado ela esperava pacientemente na porta. No automóvel seu lugar preferido era ao lado do motorista, sentada, olhando a paisagem, acompanhando o movimento das ruas. E se o deslocamento era longo, passava delicadamente sua patinha na perna do motorista para ganhar uma guloseima e se distrair com ela durante a viagem.

Era dócil e carinhosa com todos, mas também tinha suas antipatias. Não queria contato com alguns cachorros, talvez por serem pequenos e escandalosos ou porque a assediavam agressivamente. Gostava mesmo dos cachorrões, bem maiores do que ela. Com as patinhas em torno do pescoço deles abraçava-os e dançava, em duas patas, uma dança divertida e alegre. Surpreendia os garotões que abanavam o rabo para o irresistível charme daquela ousada dançarina. Também não era agressiva com as fêmeas, mas sempre sabia se impor, bastava um único rosnado.

Em casa, esperava pacientemente minha chegada e sempre me recebia com festa. Para deixá-la calma durante minha ausência uma luz ficava acesa e a televisão ligada. Nas minhas viagens, a deixava na praia na casa de minha família, e lá ela também soube se fazer querida por todos, me esperar pacientemente e comemorar a minha volta, sem queixa ou rejeição alguma.

Como uma sombra, estava presente me observando, onde quer que eu estivesse. Se trabalhando no computador, encostava na minha perna, se cozinhando sentava me fitando fixamente e aguardando uma migalha qualquer de atenção ou de comida, que devorava sofregamente, no quarto ficava acompanhando meus gestos, posicionada ao pé da cama. Testemunhou meus infinitos momentos de alegria e tristeza e sempre foi parceira com seu olhar atento, aproximações delicadas e carinhosas.

Ultimamente seus movimentos tornaram-se lentos, as perninhas mal se aguentavam, ouvia e enxergava pouco, mas mesmo assim gostava de caminhar, andar por meio quarteirão e voltar para casa. Se distraidamente eu acelerasse meus passos, ela parava, avisando que não conseguia me acompanhar, da mesma maneira que eu fazia antes quando ela disparava na minha frente. Com todas suas limitações, ainda se aproximava para oferecer carinho, pedir por guloseimas e bater o rabinho se recebesse um afago. Se antes me esperava atrás da porta, ultimamente preferia ficar deitada em sua caminha e levava um tempo para perceber que eu havia voltado, mas ao constatar minha presença, vinha sempre me receber, mesmo com grande dificuldade para se levantar.

Finalmente seu organismo cansou de funcionar. Ela sempre guerreira ainda resistiu, apesar do sofrimento. Por todos esses anos de uma feliz convivência não queria que ela sofresse. Era o momento da despedida. No meu colo senti seu corpinho e o abracei pela última vez, agradeci tudo de bom que ela me proporcionou. Ela me dirigiu o mesmo olhar carinhoso e agradecido, até dormir e seu coraçãozinho finalmente parar. Foi a última lição que ela me deixou, a paz que se sente ao se partir nos braços de quem amamos por toda vida.

Ganhei muito com a minha amada Princesa e perdê-la é muito triste. Fica a ausência, a saudade e essa história registrada no meu coração, na ternura de lembranças dos bons momentos. Sinto-me hoje, como provavelmente a Princesa se sentia, ao ver na estrada o automóvel partir. Ela acreditava que ele voltaria, e eu acredito que vou reencontrá-la, brilhando lá no céu, disfarçada de estrela.

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6 comments

  1. zilma zakir disse:

    Lindo texto Ivete, uma homenagem à altura de sua companheira. Palavras com puro sentimento. Emocionei muito. Beijos.

  2. Maria Elisa Napolitano disse:

    Conheci a Princesa e senti muito a sua partida. Senti mais ainda pela tristeza de sua dona, tão amorosa e companheira de todas as horas. A linda despedida, num texto tão emocionante, me fez chorar. Mas a história dessa princesinha é muito bonita e ela teve a felicidade de ser tão bem tratada e amada e, agora, certamente está brilhando feito estrelinha lá no céu, como nós acreditamos, não é Ivete?

  3. Consuelo Fernandez disse:

    Ivetinha, eu acompanhei de longe essa história, mas, mesmo assim, chorei ao ler seu texto. Princesa foi a cachorrinha mais persistente que eu conheci. Escolheu você e não desistiu até conquistar o espaço que já ocupava em seu coração. Como sempre, seus textos são maravilhosos. Força minha amiga… como você disse “ela virou estrelinha”… podemos homenageá-la olhando para o céu.

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