Cumplicidade

Ao nascer quem não respira, morre.O antigo equilíbrio é substituído por sensações de frio, fome e dor. Chorar é a única arma para pedir ajuda e conseguir atenção. A curiosidade orienta as descobertas. Rostos aparecem e desaparecem, tal como o peito, que mobiliza o sugar e a deliciosa sensação do leitinho quente escorrendo pela boca e garganta. Como é bom sentir braços que embalam, aquecem, oscilando em cadenciado ir e vir. Quem não é único na jornada, precisa aprender esperar a vez da atenção e se fazer notar.

Aprenderam juntos a curtir o próprio corpo. Mãos que abrem e fecham, pegando e soltando objetos, os pés que se movem e encantam o olhar. Na pele, fronteira entre o eu  e o mundo, são inúmeras as sensações. A diversão de movimentar e controlar o corpo. Sentar, subir, descer, engatinhar, ficar em pé, andar e correr. Abrir a boca e experimentar tudo ao alcance das mão, sentir o gosto do mundo com seus múltiplos sabores, doces, salgados, azedos e amargos.

São três anos de descobertas nesse mundo divertido, que contrasta com o universo assustador, pela visão dos adultos mais próximos. Mãe e avó partilham o medo do perigo  que se espalha por toda parte, lutam contra monstros terríveis que vivem à espreita para atacar uma das três crianças, ao menor vacilo. Atentas, cuidam do trio poupando-os de qualquer contato impuro. Guerreiras incansáveis, lavam as mãos das crianças com freqüência insana, escondem e limpam brinquedos que acreditam repletos de bactérias, impedem pés descalços, as cobrem com inúmeros agasalhos, impedem a ingestão de alimentos perigosos, prontos para destruí-las. Sofrem e se desdobram para manter o controle de um mundo hostil, contaminado, que a qualquer momento, pode destruir seus indefesos bebês.

Mas, a vida, felizmente, não é só composta de mãe e avó. Há pai, avô, tias, primos que contribuem para desconstruir todos esses fantasmas. São visitas animadas que fazem soprar uma brisa de  liberdade e transgressão nas rígidas regras que as crianças enfrentam. Trazem aventuras e aprendizagens úteis para a sobrevivência.

O dia era de festa e o pai recebeu de presente um delicioso chocolate. Os trigêmeos o rodearam reivindicando parte daquela iguaria. A mãe para salvar suas crias, tomou o chocolate para si evitando possíveis contaminações. Separou cuidadosamente parte milimétrica do suposto veneno e dividiu-o proporcionalmente para as três crianças. Com a diminuta quantidade sequer sentiram o sabor.

O avô aproximou-se e solicitou um pedaço do chocolate ao filho que o retomou da apavorada mãe e o ofereceu ao pai. Duas das crianças, conformados com a impossibilidade de apreciar o doce, buscaram outra distração com os primos . Ela, no entanto, observava sorrateira o avô, aproximou-se lentamente e sem precisar dizer nada, recebeu um generoso pedaço. Imediatamente o colocou na boca, apreciando o chocolate derreter, vivendo cada momento desse prazer.

A atenta avó  pediu para ela abrir a boca. Imóvel ela se negou. O avô, em silêncio, somente a observava. Diante da insistência ela informou que já engolira o que a mãe lhe dera, e a avó, então, se afastou.

O avô recebeu um lindo sorriso daquela criança que expressava, sua cumplicidade e gratidão, pelo momento de prazer, pela possibilidade de viver a vida a partir de outro olhar.

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