Costelinha

O jovem cão, de porte médio, pelo curto, dorso preto, peito amarelo, focinho dividido entre as duas cores, apareceu na praia e fez dela seu lar. Seguia os humanos com cães na coleira, sem latir para os semelhantes, e aguardava, pacientemente, que lhe oferecessem comida. Em dias difíceis deixava a praia para encontrar cumbucas de ração e água depositadas na proximidade das portas de algumas lojas. Observava cães com donos e a atenção que recebiam, e decidiu encontrar um dono para chamar de seu.

O jovem humano de 20 anos, pele dourada de sol, acompanhado de prancha e apito permanecia na praia durante todo dia. Compreendia as mensagens do mar, fincava as bandeiras na areia, para alertar desavisados a evitarem o perigo oculto sob as ondas. Para aqueles que ousavam desobedecer e entravam em áreas de risco, assobiava, gesticulava e os expulsava para áreas com maior segurança.

O cão que andava de lá para cá, encantou-se com o jovem e se aproximou. Em distância segura, sentou e observou. O sorriso na sua direção gerou um abano de rabo e maior aproximação. Ganhou um afago. Nasceu, assim, uma forte relação. Dia inteiro acompanhou o jovem. Se ele apitava e gritava para o mar ele latia bem forte. Recebeu água fresca e parte da comida do jovem, que o chamou de Costelinha, devido a sua magreza. Gostou e respondeu. Ao final da tarde, acompanhou o jovem até ele embarcar no bondinho, e arrumou um local para passar a noite

Dia seguinte, Costelinha foi para a praia e ansioso esperou pelo jovem. Ao avistá-lo, correu em sua direção, saltou, rodopiou, e ganhou muitos afagos. E assim a dupla foi se conhecendo e reconhecendo ao longo de três dias. No quarto dia, quando o bondinho estacionou, o jovem pegou Costelinha no colo, subiu no veículo e o acomodou para a viagem. Era a primeira vez que Costelinha se deslocava sem usar suas patas. No colo, observava a paisagem se mover, sem se mexer, mal respirava. Apesar dos cenários se alterarem e se tornarem desconhecidos, a confiança permaneceu nos 15 minutos mais longos de sua vida.

O jovem puxou uma cordinha que emitia um som, alertando o motorista para o bondinho parar. Desceram e novamente, suas patas tocaram o chão, para seguir de pertinho o jovem em uma área que desconhecia. Chegaram a uma casa com belo jardim e quintal. O jovem o levou até uma casinha com recipientes de água e comida. A mãe e o pai do rapaz foram apresentados a ele. Abanou o rabo demonstrando sua satisfação em conhecê-los. Finalmente, uma casa e um dono.

Dia de folga, o jovem foi à praia para fazer o que mais gostava, surfar, e Costelinha foi junto de bondinho. Observou melhor a paisagem, o motorista, e sua boa relação com seu dono. Divertiram-se a valer, correram, entraram juntos no mar, o jovem surfou e Costelinha aguardou na praia e depois na prancha, furou ondas com o dono e adorou. Depois foram andar de jetsky e o cão surpreendeu o dono se acomodando na dianteira. Ao voltarem, Costelinha subiu sozinho, reconheceu a paisagem e o ponto de desembarque.

Cansado, mas feliz o cãozinho quase desmaiou de cansaço na sua nova casa. Logo ao amanhecer, seu dono vestido de guarda vida, fez um afago e foi embora. Ele bem que tentou ir junto, mas o dono o impediu fechando o portão. Inicialmente, ficou desorientado. Não queria ficar ali, seu mundo era a praia. Depois de algumas tentativas conseguiu saltar o portão. Seguindo seu faro chegou ao ponto do bondinho e aguardou sua chegada. Na parada subiu e se instalou para observar a paisagem, apesar do cobrador tentar fazê-lo descer. Reconheceu a proximidade da praia, começou a latir, o motorista parou e ele saiu em disparada para encontrar o dono.

O jovem ao vê-lo se surpreendeu e só acreditou, nas pessoas que informaram que ele chegou na praia de bondinho, quando ao voltar, o motorista e cobrador confirmarem a história, pois ela já era de domínio de todos da empresa. Por outros dois dias a história se repetiu, devido a insistência do jovem em deixá-lo em casa.

Costelinha se tornou assistente de guarda vida. Ganhou uniforme apoiando o dono a carregar as bandeirinhas de aviso, latir para os que estavam em locais perigosos, ficar atento ao movimento das pessoas no mar. Viaja de bondinho subindo e descendo, sem errar o ponto. É conhecido e admirado pelos bombeiros, pelos que frequentam a praia e os bondinhos. Tornou-se celebridade e todos o chamam pelo nome. Ganhou mais que um dono, um companheiro de vida, de lazer e de trabalho.

 

13 Total de visitas 1 Visitas de hoje

Share This:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *