A volta para casa

gerranasestrelasO tempo voou no mês fora de casa e agora era hora de voltar para o ninho. Foi doce conviver com o filho mais velho e sua querida família, em um país civilizado, que ele considerava muito melhor que o dele. Lá sentiu-se seguro nos deslocamentos, admirou o respeito às regras de convivência e as belas paisagens. Teve a oportunidade de conviver com uma neta encantadora e acompanhar o desenvolvimento de outro a caminho, quase chegando. Comemorar a vida que chega, ao sentir que a própria está a caminho do fim da estrada, renova as esperanças na continuidade da existência, uma sensação de que a vida valeu a pena, e de que a presença física não é mais necessária como companhia no percurso.

Voltar para casa e atender aos pedidos dos que ficaram à sua espera. Mesmo que a encomenda de um dos netos seja um capacete de jogador de rugby. Como negar realizar o desejo de quem fez o avô se orgulhar pela sua classificação, entre os primeiros vestibulandos, em uma renomada universidade? E como esse havia outras dezenas de pedidos de filhos, amigos, colegas de trabalho. Sentia-se como o velho Papai Noel, que acredita que todos os desejos merecem ser atendidos. Os produtos desse país distante eram objetos de desejo e tão sedutores como os brinquedos produzidos por duendes, na fábrica imaginária do velho natalino.

Se o coração estava feliz em atender aos amados, o seu corpo pedia socorro naquele aeroporto. Não havia trenós nem rena e era preciso transportar um capacete, uma mochila e uma mala de mão, além das outras malas e caixas despachadas, a serem resgatadas na esteira rolante ao final do seu destino. Transportar um capacete é um desafio. É impossível acomodá-lo na mochila ou mala e sua fragilidade impede que seja   despachado. Pensou até em vesti-lo, como a mochila que carregava nas costas, mas iria assustar a todos naquele saguão, e em tempos de terrorismo não seria fácil convencer à segurança, que ele estava apenas atendendo um estranho pedido de um neto. O jeito era carregá-lo nas mãos, equilibrando, ao mesmo tempo, aquela forma desajeitada e a mala.

Chegou cedo, prevendo dificuldades para o deslocamento do seu velho corpo e da sua inusitada carga extra, do saguão à sala de embarque. Esbaforido e aliviado ao vencer a primeira etapa do rally, sentou-se próximo à entrada para o embarque.

Ao observar o movimento ao redor, uma família, que falava o idioma do seu país, chamou sua atenção. Era formada por um casal, uma bela jovem e um garoto. O adolescente corria de um lado para outro, gritando e agitando uma espada de brinquedo, réplica da usada no filme Guerra nas Estrelas. O pai o seguia por todo o ambiente, contendo-o quando ele ameaçava querer lutar contra os inimigos, no caso, os demais passageiros. Se a idade mental do garoto era bem menor ao seu tempo de vida e altura, sua energia transbordava. Chamou sua atenção, mais que o comportamento do jovem, a paciência do pai, seu carinho e as tentativas de acalmá-lo, com ternura e sem repressão.

A atenção àquela relação pai e filho fez o tempo passar rápido até a chamada dos prioritários para o embarque. E lá foi ele de novo para sua maratona. Mochila, mala, capacete, cartão de embarque e o longo caminho até o assento no avião. Mal havia se acomodado e à sua bagagem, quando ouviu a voz do garoto que há pouco guerreava nas estrelas, bem atrás do seu assento. Ele perguntava ao pai se a viagem iria demorar muito e se podia continuar sua guerra. O pai pacientemente explicou que seria um longo percurso, embora a nave fosse segura, e que ele deveria guardar a arma até chegar ao destino. Assim, conseguiu que o garoto lhe desse a espada e a acomodou ao lado do capacete, no compartimento de carga. Ao sentar-se ao lado do filho, explicou ao passageiro vizinho, que o menino costumava enjoar nos voos, justificando, assim, o grande saco de plástico que ele colocou à frente do assento do garoto.

O avião levantou voo e o guerreiro, pouco tempo depois, cumpriu as previsões realizadas pelo pai, passou mal e vomitou muito. O pai esforçou-se em minimizar o incômodo, apoiou o menino, recolheu e descartou os dejetos. O garoto guerreiro dormiu por um tempo, vencido pelo cansaço das lutas imaginárias e pelo esforço para recobrar o equilíbrio do corpo. Ao acordar continuou como um relógio cuco desregulado, perguntando de tempos em tempos, ao pai quanto faltava para descer da nave/avião. O pai, durante o restante da viagem, respondia calmamente a todas as perguntas repetindo como um mantra: “ainda falta muito para chegarmos”. Finalmente, ao chegar ao tão esperado destino, o guerreiro resgatou a espada e partiu com o pai para novas jornadas.

Durante o tempo de viagem o velho que acompanhava cada movimento atrás do seu assento desejou ser realmente um Papai Noel e dar de presente àquele pai, alívio para carga tão pesada que a vida lhe reservou. Depois da aterrisagem ele foi um dos últimos passageiros a sair do avião e sua bagagem lhe pareceu muito mais leve.

Ao reencontrar os filhos no aeroporto os abraçou e lágrimas brotaram em seus olhos. Eles interpretaram como sendo de saudade, mas ele sabia que eram de gratidão, pela generosidade da vida, que não exigiu que ele os acompanhassem na luta de uma eterna guerra nas estrelas. Era grato pelos filhos carinhosos, que tem certeza, cuidarão dele se um dia precisar, e também pela tranquilidade de poder partir dessa vida, sabendo que eles e seus netos não necessitam de cuidados especiais pelo resto de suas vidas.

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4 comments

  1. Maria Elisa Napolitano disse:

    Que história encantadora! Um tanto exagerada, na verdade, ao se referir ao “velho”, pois ele deve ser bem mais jovem do que é caracterizado. Achei muito divertida, engraçada até, para quem não está na pele do companheiro de viagem, claro! Quanto à bagagem, que perrengue! Só quem tem boa saúde e muita energia pode dar conta de seu transporte. Mas é emocionante, no final, pela gratidão à vida e ao carinho dos filhos.
    Amei!!!

  2. Consuelo Fernandez disse:

    Ivetinha, eu me vi em seu conto… viajar com objetos que não se encaixam em lugar nenhum, lágrimas que brotam na chegada… iguais às derramadas na partida. O corpo pedindo socorro, mas a ansiedade em chegar diminuindo o desconforto. Como é bom ler seus contos… me fazem viajar e me deixam feliz. Obrigada por mais este.

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