A sorte bateu na porta

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Na pacata cidade chamada Paulistinha, Candinho exercia a função de gerente de uma agência bancária. No seu cotidiano vivia as voltas com diferentes pessoas orientando-as no uso e aplicação do dinheiro para que pudessem aproveitar os serviços que o banco lhes oferecia. Essa atividade o desgastava, pois era uma tarefa árdua ajudar a administrar o dinheiro alheio e, além disso, ouvir e ajudar resolver os dramas pessoais acompanhados de problemas financeiros. Era a dona Maria que precisava de um empréstimo para sobreviver à morte do marido, dona Filomena que queria casar a filha sem condições financeiras; o senhor José, apaixonado, mas sem dinheiro para casar; o senhor Manuel que queria garantias para que se sua mulher ficasse viúva não passasse dificuldades; o agiota Salomão preocupado em conhecer o rendimento de seu dinheiro nas mais diferentes aplicações. Enfim, diariamente, o gerente Candinho acompanhava diferentes dramas o que o levava a se distanciar, na sua vida pessoal, de tudo que se referisse ou estivesse associado a dinheiro.

Candinho era casado com dona Salomé, uma querida professora primária da cidade e tinha cinco filhos. Morava em uma casa alugada e quando o proprietário morreu os herdeiros lhe ofereceram a oportunidade de comprá-la por um montante bem abaixo do efetivo valor. Pressionado por toda família, ele aceitou adquiri-la. Mas, o que Candinho gostava mesmo era de fazer uma fezinha, semanalmente, na loteria federal, comprando os bilhetes de um personagem da cidade que era conhecido por todos como o Zé Bundinha. O vendedor de bilhetes era baixinho, gordinho, com um defeito na perna, e ao andar empinava e destacava o atributo físico que justificava o seu apelido.

Candinho jogava semanalmente o que ele chamava de cota para a sorte, o mesmo valor em dinheiro, e sempre conferia, cuidadosamente, o bilhete com o resultado publicado pela loteria federal. Os jogadores, em geral, se preocupam com o valor do premio e fazem projetos para quando se tornarem ganhadores. Não era o caso de Candinho. Ele se preocupava apenas em verificar se os números jogados correspondiam ao resultado da loteria, se ele havia sido ungido pela sorte. Ficava sempre frustrado ao conferir o bilhete com os resultados, mas na semana seguinte procurava Zé Bundinha, comprava novo bilhete, e renovava a esperança de se tornar um ganhador. O vendedor de bilhetes reservava sempre um bilhete completo a Candinho seu cliente mais fiel.

A família se acostumara àquele ritual semanal convencida que o prêmio em dinheiro que o jogo poderia trazer não era a principal preocupação de Candinho, ele queria mesmo acertar os números, apenas isso. Prova do desapego com o dinheiro a família teve quando ele financiou uma casa maior para moradia da família. Ele vendeu a antiga casa para um amigo em troca de algumas sacas de arroz. Não houve quem o demovesse dessa decisão. Ele conhecia a dificuldade dos pequenos produtores em comercializar o fruto do seu trabalho na terra, vendendo abaixo do valor emprestado pelo banco e dos efetivos gastos para sua produção, para não amargar prejuízo total. Assim, ele resolveu aceitar do amigo produtor o pagamento da casa pelo valor, que considerava justo das sacas de arroz, que estava muito depreciado naqueles tempos. Graças a Candinho a família comeu em poucos meses o valor da casa onde viveram por décadas.

Um dia Candinho foi chamado para resolver um problema na cidade vizinha em dia de sorteio da loteria. Com medo de se atrasar na volta para casa e não conseguir adquirir o bilhete ele o comprou na rodoviária de um desconhecido vendedor.

Candinho voltou para Paulistinha antes do anoitecer e ao caminhar da rodoviária para casa encontrou Zé Bundinha na porta da loja de material de construção. O vendedor veio correndo lhe oferecer o bilhete da semana. Candinho o recusou, pois sua cota do jogo semanal já havia sido gasta na compra realizada na cidade vizinha. Mas, se comoveu com o desespero de Zé Bundinha que não sabia o que fazer com as várias partes do bilhete em seu poder. O tempo para vender estava se esgotando e ele temia grande prejuízo. Penalizado com a situação de Zé Bundinha, Candinho decidiu ajudá-lo na venda.

Candinho à frente de Zé Bundinha entrou na loja de material de construção e lá estavam algumas pessoas que ele conhecia muito bem. Então, começou a negociar a venda de uma parte do bilhete ao casal que comprava lâmpadas. Sabia que eles iam se casar e que estavam em dificuldades para pagar as despesas. Incentivou-os a comprarem o bilhete, pois não se vira as costas para a sorte e se ela estava ali batendo à porta deles, era um sinal da ajuda do destino. Inicialmente em dúvida o casal comprou uma parte do bilhete. O argumento de que não havia acaso, mas oportunidade foi repetida para cada um dos compradores presentes na loja. Foi assim com o coveiro que adquiria uma pá, com a professora que comprava uma torneira, com o colega do banco que entrara apenas para saber o preço de um chuveiro novo. Todos levaram parte do bilhete. Finalmente, restava uma única parte do bilhete e Zé Bundinha voltou a pedir que Candinho a comprasse para encerrarem aquela situação constrangedora na loja. Mas, Candinho preferiu oferecer esse último pedaço ao senhor Fuad, dono da loja. Convenceu-o menos pelos argumentos e mais pelo desejo, do dono da loja, de se livrar daquela dupla que tumultuava as vendas em seu ambiente comercial. Fuad não queria ser grosseiro com Candinho, que o havia ajudado em situações difíceis, mas naquele momento o queria ver pelas costas e assim comprou a última parte do bilhete.

Zé Bundinha estava exultante, pois em menos de meia hora Candinho negociou a venda de todas as partes do seu bilhete. Agradeceu e foi embora comemorando enquanto Candinho seguiu rumo a sua casa.

No dia seguinte, ao receber o jornal pela manhã, Candinho preparava-se para conferir o seu bilhete com o resultado da loteria quando foi impedido pela algazarra que se formava no seu portão. No seu jardim deparou-se com a invasão das pessoas para quem havia vendido o bilhete no dia anterior. À frente de todos estava o senhor Fuad. Candinho levou um tempo para compreender a situação, pois todos falavam ao mesmo tempo. Finalmente, compreendeu que estavam ali para agradecer, todos eles se tornaram ganhadores da loteria federal.

O premio propiciou a todos a realização dos sonhos: casamento, viagem, aquisição de automóvel e até a ampliação da loja pelo senhor Fuad. Candinho, por sua vez, continuou até o fim da vida, jogando semanalmente e conferindo seus bilhetes. Ele cumpria um ritual, pois sabia que, mesmo sem querer, impediu a sorte de entrar quando ela bateu na sua porta e ela se ofendera. A bela  dama não voltou jamais.

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