A idosa, o jovem e o cachorro

Viviam em cidades distantes e décadas de cultivo de uma sincera amizade. A distância física não impedia a proximidade afetiva. Eventualmente viajavam para se encontrarem. Agora, a amiga mineira ia ser operada e a paulista programou-se para acompanhá-la e apoiá-la. O filho da mãe mineira, morador em terras paulistas, ofereceu carona para a longa viagem de automóvel.

No dia marcado e com muitas horas de atraso, em relação ao combinado, ela se surpreendeu com a presença de mais uma companheira de viagem, uma cadela border collie. Para o jovem, a mãe e a cadela tinham muitas afinidades e como não poderiam se encontrar até a completa recuperação cirúrgica materna, resolveu reduzir o tempo de separação.

A conversa entre os três foi animada estrada a fora. O jovem relatava seus projetos, mas os interrompia, vez ou outra, para registrar o quanto a cadela era inteligente e contar as peripécias realizadas. A idosa ria observando a cadela, pois ela parecia compreender que estava sendo elogiada, retorcia-se no banco atrás do dono, para alcançar seu rosto e cobri-lo de gratas lambidas.

Tarde da noite, na estrada vazia, em pleno meio do nada, o automóvel começou a soluçar. Aproveitando os últimos soluços, o jovem estacionou o automóvel no acostamento. Tímido, confessou à idosa que esquecera de abastecer e que não contavam com nenhuma gota de gasolina. A idosa não fez nenhum comentário. A cadela se animou com a parada e interpretou que era hora de desembarcar. O dono percebeu a agitação do animal, colocou a coleira e foi para o acostamento pensando no que fazer. A idosa os observava pela janela e torcia para que tudo não passasse de um sonho ou pesadelo.

Ao retornar comunicou que encontrou uma placa indicando um posto há quinhentos metros. O trio venceu a distância e a escuridão em célere caminhada e entrou triunfante naquela área iluminada que indicava a chegada. Não houve aplausos nem plateia, e somente avistaram uma pessoa há aproximadamente cem metros. A idosa já arfava, mas a cadela e o jovem correram em direção ao homem. Observando-os à distância, pressentiu que não era uma boa notícia. O posto somente vendia diesel, não havia gasolina e nem um automóvel para realizar um empréstimo. Mas, o jovem continuava animado, pois soubera que havia um posto na pista contrária a uma distância aproximada de mil metros.

Decidiram que o melhor era a idosa e a cadela permanecerem onde estavam e ele iria em busca da gasolina, abasteceria o automóvel e viria pegá-las. Como plano, era perfeito. A idosa segurou firme a coleira, e ele partiu em disparada atravessando a estrada. Ao ver o dono se distanciar, a cadela girou enlouquecidamente o corpo para um lado e para outro e a idosa se viu com a coleira vazia na mão. Ela gritou o nome do jovem bem alto, que se voltou e viu a cadela atravessando a primeira pista. Ele correu na direção dela e antes mesmo que conseguisse alcançar o meio da segunda pista, ela saltou para o seu colo. Ele bambaleou o corpo ao receber o peso nos braços, mas logo recuperou o equilíbrio e terminou a travessia.

A idosa conseguia ouvir seu coração e sua respiração acelerados e a estrada que lhe parecia uma maldição, sem automóveis e viva alma que os pudesse ajudar, transformou-se em uma benção, poupou a vida daqueles dois seres, que agiam por puro instinto.

Decidiram então, que os três retornariam até o automóvel, ele trancaria a cadela e a idosa dentro dele, enquanto ele iria em busca do posto. Sozinha com a cadela a idosa lembrou-se das histórias que ele contara sobre a sagacidade do animal, além do que havia testemunhado. Considerou que era pouco apenas estar trancada com ela. Agarrou-a em seus braços e conversou com ela todo tempo, acalmando-a e impedindo qualquer novo gesto tresloucado.

O tempo que permaneceram abraçadas é difícil de calcular, pareceu uma eternidade. Nem os telefonemas insistentes da mãe e amiga preocupada com a demora deles foram atendidos.

A volta do jovem deu início à nova etapa da viagem, agora, sem grandes emoções

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