A escolha

Decisão-profissional Três executivos de uma multinacional foram designados na década de sessenta, para escolher uma agência para desenvolver um plano de marketing. Um deles era da matriz, sério e de poucas palavras, seus critérios sempre valorizavam a competência. O segundo era mexicano, filho de pai médico e mãe escritora. Ele estudou muitos anos nos EUA, país de origem da empresa,onde fez carreira de sucesso, tendo sido indicado para ocupar uma diretoria no Brasil. Ele era descontraído, roupa solta, cabelos longos como dos roqueiros da época, sagaz, inteligente, um jovem à frente do seu tempo. O terceiro,  paulista, especialista com perfil técnico, divertido, bem humorado e competente para descobrir talentos e agregar equipe de trabalho.

Viajaram juntos para conhecer duas das melhores agências de publicidade e propaganda do país, localizadas em outro estado. O atendimento, nas respectivas sedes das agências, foi realizado em espaços bem decorados, as reuniões aconteceram em salas climatizadas, com poltronas extremamente confortáveis, regadas a cafés e água, em xícaras de porcelana e copos de cristal. Profissionais experientes das agências realizaram belas apresentações, com o melhor em tecnologia. As relações apresentadas com os clientes de ambas as agências impressionava, bem como os prêmios que  receberam  em festivais internacionais. Os executivos regressaram das visitas certos que a escolha entre as duas grandes não seria fácil.

Por um acaso do destino, ao retornarem à empresa, se depararam com um folheto de divulgação de uma nova agência, próxima a empresa. Decidiram agendar uma visita para conhecê-la.

No dia da visita, o calor era intenso na pequena sala de espera onde se espremiam dois sofás. Na parede, um ventilador antigo rangia alto sem conseguir refrescar o ambiente. O dono da agência visivelmente nervoso, entrou sorrindo com o cabelo desalinhado, calça jeans “surrada”, camisa azul desbotada e um paletó branco, levemente amassado. Parecia um personagem recém saído de uma revista em quadrinhos.

Dirigiram-se para sala de reunião onde não havia espaço suficiente para acomodar, ao redor da mesa, os quatro participantes. Foi necessário deslocar uma das cadeiras para a porta, que permaneceu entre aberta. Nesse momento, o ar condicionado da sala parou de funcionar. Todos os botões acionados no velho aparelho foram em vão, e ele se negou a responder até aos socos nervosos que recebeu. Numa tentativa desesperada para diminuir a temperatura da sala, o dono da agência acionou a persiana para  abrir a única janela. A persiana despencou, quase atingindo a cabeça do dono da agência e de um dos executivos, bloqueando o acesso à janela. O suor escorria sem cessar pelo corpo do apresentador e dos executivos e a água nos copinhos de plástico parecia ferver.Nesse clima de calor e trapalhadas a apresentação foi abreviada, destacando apenas alguns pontos principais do serviço a ser oferecido.

Reunião encerrada, foi grande o alívio que todos sentiram ao deixarem a sala.  Podia-se ler a frustração e desapontamento nos olhos do dono da agência. A lei de Murphy foi impiedosa com ele: “Se algo podia dar errado, deu errado”. Só lhe restava lamentar a perda do potencial cliente.

Os três executivos no caminho de volta a empresa se divertiram ao lembrar da comédia de erros que presenciaram, mas lamentaram o sofrimento do dono da agência. A  comparação com as outras agências era inevitável o que tornava a situação ainda mais cômica.

Ao iniciar a reunião para a escolha da agência, o executivo técnico sugeriu que descartassem a última visita e seu estranho personagem, e passassem a definir critérios para a seleção das outras duas. O executivo roqueiro surpreendeu a todos discordando e dizendo que sua escolha era justamente a pequena agência. Ele justificou com três argumentos. A conta deles era pequena para as grandes e vital para a pequena agência que estava iniciando no mercado. O dono dela foi o mais buscou conhecer a área deles com antecedência, e que ofereceu as alternativas mais pertinentes para um plano de trabalho. E, por último, a proximidade geográfica facilitaria o trabalho. Os outros dois executivos inicialmente surpresos, analisaram os argumentos apresentados e concordaram com o roqueiro.

Dias depois ligaram para a pequena agência informando que ela havia ganho a concorrência para a conta da multinacional. O dono pensou se tratar de uma brincadeira, mas ao constatar que era verdade, perdeu o fôlego. Riu a mais não poder com a condição que lhe foi imposta pela multinacional, para realizar o atendimento na empresa, até que ele consertasse o ar condicionado e a persiana.

A parceria foi um sucesso e o trabalho competente da agência, a boa convivência, evoluíram para uma amizade sincera. O primeiro contato sempre que lembrado, ainda provoca boas risadas. Mais que o estrangeiro e o técnico, o executivo roqueiro foi quem ensinou que boas decisões na vida, não se pautam por aparências e circunstâncias, mas pela essência, pelo significado que elas podem vir a ter.

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