A cara do pai

metrô

Viagem de metrô com todos os assentos do vagão ocupados. Uma senhora observa a entrada de uma mulher com um bebê no colo, envolto em um xale, com o rosto coberto por uma fralda. Ao lado da senhora, em um assento para passageiros especiais, está sentado um jovem com olhos fechados, fones de ouvido balançando ritmicamente cabeça e pernas. Ela cutuca o braço do jovem que a encara.

“Você está se sentindo bem?”

” Sim… por quê?”

“Então, por favor, desocupe o assento, veja a senhora com o bebê…”

O jovem lentamente arruma a mochila, levanta-se e vai para o outro lado do trem. A mulher recém- chegada sorri para a senhora, agradecida,  e acomoda-se.

” Esses jovens de hoje são uns dissimulados, sentam em assentos especiais e fingem estar dormindo – disse a senhora”.

” Obrigada pela sua atenção, estou acostumada com isso”.

“Eu acho que é nossa obrigação como cidadãos mais experientes é orienta-los e fazer cumprir as regras”.

“Eles não são os únicos que não cumprem as regras”.

“É verdade, dá medo de pensar no futuro. Sem obediência às leis, a violência só aumenta e o respeito aos semelhantes diminui. É um mundo selvagem em que as pessoas estão cada vez mais parecidas com os animais”.

” Acredito que podemos confiar mais nos animais que nos humanos”.

“É seu filho?”

” Não, é minha neta, vou levá-la ao médico”.

“Ela está doente?”

“Não, visita de rotina para as vacinas e minha filha está ocupada cuidando dos outros filhos”.

“O que seria do mundo se não fossem as avós? Também tenho netos e ajudo meus filhos  a orienta-los. Não deixo fazerem o que querem, eles têm que aprender a obedecer….”

“…as regras – completou a mulher sorrindo. Vou descer na próxima estação”.

“Eu, também”.

“Desceram juntas e ao se despedirem, por tomarem destinos diferentes, a senhora fez um pedido irrecusável”.

“Tudo de bom, vovó. Ah… posso ver sua netinha?”

A mulher suspendeu a fralda revelando o focinho de uma cadelinha, sem raça definida, e orgulhosa, disse baixinho à senhora:

“É parecida com o pai”.

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One comment

  1. Consuelo Fernandez disse:

    Adorei o conto. É a cara do pai!!! Não posso dizer isso dos meus… mas adoraria levá-los a andar de metrô.

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